terça-feira, 30 de junho de 2015

Mensagem para o sobrinho Giovanni

Como prometi, em resposta à sua mensagem pedindo minha opinião sobre uma eventual saída de casa e ida para longe, talvez para o exterior, vou tentar relatar alguns exemplos de empreitadas que se enquadram em seu questionamento e depois vou propor ideias para sua reflexão.
Vou me ater aos seguintes fatos:
    Saída do Oscar da Bahia;
    Minha saída de Campo Grande;
    Volta ao mundo de um engenheiro em bicicleta;
    Travessia do Atlântico pelo Amir Klink em canoa;
    Trabalho do Agton no Japão; e
    Passagem do Delaorzinho, Sabrina e Cynthia pela Austrália.
Saída do Oscar da Bahia
Em 1931, ao completar 18 anos, Oscar decidiu deixar a Bahia e buscar seu destino em estados mais promissores. Passou alguns meses em Minas Gerais trabalhando na lavoura. Depois seguiu para São Paulo, onde participou do desmatamento para a implantação de agricultura. O trabalho era pesado e realizado em condições adversas, com insuficiência de alimentação e salário baixíssimo.
Após a jornada paulista, ele seguiu para o Norte de Mato Grosso (à época, o segundo maior estado da Federação, pois ainda não tinha sido dividido), para trabalhar no garimpo de diamantes. Tratava-se de trabalho pesado, com a participação majoritária de aventureiros que não tiveram sucesso em suas regiões de origem. A atividade garimpeira se inseria em ambiente de incerteza na descoberta do mineral precioso, com salários insuficientes e com a predominância de lazer apoiado em farra, com bebida alcoólica e prostituição.
No final da década de 1930, Oscar seguiu para o Sul do estado e continuou trabalhando no garimpo, em Rochedo, Corguinho e Fala Verdade (Baianópolis). Nessa época, ele labutou também na agricultura e pecuária; conheceu e trabalhou com o fazendeiro Antonio Deolindo, chefe da família de sua futura esposa. Assim, no segundo semestre de 1944, casou-se com Zica, uma das filhas de Antonio.
O restante da história de seu avô Oscar, você conhece. Que razões podem ser atribuídas à prevalência de mais êxitos do que insucessos na vida do velho Oscar, mesmo tendo vivido sua aventura em circunstâncias tão desfavoráveis, e sem qualquer planejamento de vida? Acho que a resposta está em algumas características do perfil comportamental e físico de Oscar, cuja caracterização pode englobar:
   era muito forte, corajoso e trabalhador e, por isso, angariava respeito;
   não mentia, agia com correção e decência e era, portanto, confiável;
   não bebia, não participava de farras e era conservador nas horas de lazer; e
   não fazia compromissos que não pudesse cumprir e, particularmente, não contraía dívidas.
Atribuo a esses atributos os fundamentos para que Oscar tenha garantido o respeito de quantos o conheceram ao longo de sua vida. Esses fundamentos respondem também pelo sucesso profissional e familiar que ele angariou em sua trajetória que, não raro, teve situações de ousadia e aventura — êxitos modestos em uma análise ampla, porém, enormes se consideradas sua origem e seu grau de escolaridade.
Minha saída de Campo Grande
Em 1965, estava com os quatro manos em Campo Grande. Àquela época, cheguei à conclusão de que cinco filhos dando despesa para os pais era uma responsabilidade financeira enorme. Se eu tivesse uma maneira de não depender de papai e mamãe, possivelmente, os manos seriam beneficiados. Então, decidi tentar sair de Mato Grosso em busca de meu destino.
Uma das formas de quebrar a dependência financeira dos pais era o ingresso nas Forças Armadas. Percebi que poderia tentar ser aviador e também engenheiro. Fiz o concurso para a Escola Preparatória de Cadetes do Ar (EPCAr), localizada em Barbacena. Tive êxito nas provas e fui admitido naquela escola da Força Aérea Brasileira. Como você bem sabe, depois transferi-me para a Academia das Agulhas Negras (AMAN), do Exército.
Acho que a minha saída de casa e de Mato Grosso levou em conta algumas condicionantes. Havia um objetivo bem definido e eu sabia para onde ia e em que condições iria viver, especialmente, no que diz respeito aos meios. Afirmo com ênfase que a EPCAr provia condições de moradia, alimentação, assistência de saúde, escola gratuita e até mesmo uma pequena mesada mensal.
Vale a pena sintetizar os seguintes aspectos que não podem deixar de ser considerados: a formulação de objetivo de curto e médio prazo; a identificação do local para onde ir; a caracterização das condições de vida que serão enfrentadas; e, por último e essencial, os meios, as fontes de recursos com que se vai contar. A bem da verdade, naquela época eu não tinha muita consciência disso. A rigor — por paradoxal que pareça — só agora, consigo dar essa interpretação e assimilar a lição. Então, o destino e a sorte foram padrinho e madrinha.
Volta ao mundo de um engenheiro em bicicleta
No ano de 2000, eu era Adido Militar (Adido da Aeronáutica, do Exército, da Marinha e de Defesa é o nome completo da função) junto à Embaixada do Brasil em Teerã, capital do Irã. Lá, tive a oportunidade de conhecer um brasileiro que estava dando a volta ao mundo de bicicleta. Ele é engenheiro formado na USP, trabalhava em uma empresa estatal de São Paulo e deixou o emprego para viver a aventura de circular em todos os continentes, pedalando.
Ele foi à Embaixada de Teerã para obter o visto no passaporte. Conversei um bom tempo com esse aventureiro. Depois da jornada iraniana (ele cruzou o Irã de Norte a Sul), ele percorreria sucessivamente — pedalando, enfatizo — Afeganistão, Paquistão, Índia, países do Sudeste asiático, e depois seguiria de avião para a Austrália.
Deve ser notado que ela deixou a estabilidade de um emprego considerado bom e com perspectivas de boa evolução profissional para enfrentar incerteza, dificuldade e adversidades imprevistas. Por que? Segundo ele, pelo sabor do desafio e da aventura, e porque tinha objetivos relevantes.
Ele era aficionado por bicicleta e, antes do início da viagem, pedalou no dia a dia brasileiro por quase dez anos. Começou a pensar na viagem e preparou-se durante cinco anos. Nesse sentido, aperfeiçoou o melhor que pôde o inglês; estudou detalhadamente o provável percurso; estabeleceu contatos em cada região em que passaria — curiosamente, deu ênfase para moças que fossem possíveis namoradas em cada país; e planejou a meta fundamental a que se propunha, isto é, angariar conhecimento e escrever dois livros; devendo-se notar que ele partiu do Brasil com os possíveis índices dos livros já prontos.
À primeira vista, ele poderia ser considerado um irresponsável. Aprofundando-se a análise, constata-se que sua façanha obedeceu a inequívoca responsabilidade, fundada na lógica e na razão.
Travessia do Atlântico pelo Amir Klink
Não sei se vale a pena me estender muito na épica travessia do Atlântico, pelo Amir Klink, remando. A estória é bem conhecida. Vale a pena recordar que ele deu partida no projeto depois de completo estudo de todas as condicionantes da empreitada.
Então ele empreendeu pesquisas ambientais, atmosféricas, marítimas, de navegação (estabelecendo, por exemplo, meios alternativos para — se todos os meios artificiais de orientação falhassem — observando os astros, não se perder), de condicionamento físico, de alimentação marinha e, entre outros, de cuidados de primeiros socorros. E por último e mais importante de tudo, ele alinhavou todos os riscos possíveis que poderiam ameaçar o sucesso da aventura. Ademais, para cada risco identificado, ele estabeleceu a ação que deveria realizar para vencer o obstáculo e seguir em direção ao objetivo colimado.
O caso do Amir Klink é o melhor exemplo de empreendimento com probabilidade de erro próxima de zero.
Trabalho do Agton no Japão
Não pretendo tratar dos detalhes da jornada japonesa do Agton. Em primeiro lugar, meu conhecimento sobre ela é superficial; e também porque estando próximo do mano, você pode conversar com ele, horas e mais horas, e assimilar os aspectos essenciais.
Eu gostaria apenas de mencionar que ele estabeleceu objetivos para ir para o Japão e fez boas conjecturas para os meios de sobrevivência à disposição naquele país.
Passagem do Delaorzinho, Sabrina e Cynthia pela Austrália.
Da mesma forma que no caso da ida do Agton para o Japão, não tenho informações suficientes para analisar o mestrado que o Delaorzinho fez na Austrália e as viagens da Sabrina e da Cynthia, no aproveitamento do êxito da experiência do noivo e irmão, respectivamente.
Isso não é problema, pois a proximidade e a consideração que todos eles têm por você facilitarão o contato pessoal e a coleta de informações que vão lhe permitir a organização do processo de tomada de decisão.
Algumas inferências
Com a análise — às vezes incompleta, às vezes superficial; e com certeza, submetidas às minhas limitações — do que considero seis estudos de caso, creio que é possível amadurecer de forma mais adequada a possibilidade de empreender uma aventura de afastamento do torrão natal e das pessoas que lhe estão próximas, pelo sangue e pela pouca distância.
Os seis casos englobam pessoas comuns (as de nossa família) e outras nem tanto (o engenheiro ciclista e o remador Klink). Se conveniente, em outra ocasião, poderei tratar também de três casos relatados no livro The smartest kids in the world: and how they got that way. Refiro-me aos adolescentes americanos Kim, Eric e Tom que, em programas de intercâmbio, passaram um ano na Finlândia, Coreia do Sul e Polônia, respectivamente.
É oportuno ressaltar que, à exceção da saída da Bahia do seu avô Oscar, todos os demais casos que mencionei se enquadram no binômio conhecimento e responsabilidade. Uma metáfora boa para esse binômio é o conjunto de variáveis que respondem às perguntas: ONDE? QUANDO? COMO E QUE MEIOS? QUE PESSOAS? QUE OBJETIVOS? QUE RISCOS? QUE RESULTADOS?
Definido o local ou os locais, cabe rigoroso estudo de tudo que tiver impacto em uma eventual ida para alhures.  A geografia (relevo, clima, cidades, população etc), a economia (custo de sobrevivência, possibilidade de emprego de estrangeiros etc), o idioma, a religião predominante e os costumes devem ser vasculhados e identificados.
O período deve ser pesquisado, especialmente, no que se refere a condições climáticas e ambientais. E também porque a volta às origens está na maioria dos casos relatados e deve ser um dos objetivos. Vale recordar que meu pai, o velho Oscar,  só voltou à Bahia depois de vinte e cinco anos sem dar notícias para a família. É um ponto fora da curva. Será que a saída dele foi uma fuga ou suas circunstâncias ditaram-lhe o que fazer? Ele nunca tratou dessa questão conosco.
Como e com que meios sobreviver se relaciona com recursos para deslocamento, moradia, saúde e alimentação — evidentemente, os meios têm importância capital, dado que sem pelo menos um bom bife semanal, a sobrevivência é improvável.
Possível contatos prévios com pessoas dos locais para onde vamos é um dos fatores mais importantes. Nunca estamos sós, por mais que, às vezes, queiramos. Permita-me um exagero: estive na Sibéria e na Antártida e, sem pessoas para interagir, haveria uma impossibilidade lógica de ter ido lá. Até onde sei — e posso estar errado —, na travessia do Atlântico, o Klink se comunicava com pessoas.
A formulação de objetivos é um dos atributos essenciais da condição humana. É por isso que não somos inanimados, não somos vegetais e nem animais irracionais. Temos a obrigação de saber o que queremos.
A análise de risco condiciona a eliminação ou redução de causas de insucesso. É a garantia da possibilidade de êxito. Saber o que fazer quando as coisas estão dando errado diferencia pessoas e explica porque alguns conseguem e outros não.
Obviamente, os objetivos são uma promessa de intenção. O que move, importa e caracteriza a vitória são os resultados. Sem definir objetivos e resultados, qualquer caminho serve (paródia de provérbio chinês).
Por último e fundamentalmente importante: você pediu meu conselho. Você me enviou um problema e eu estou devolvendo dezenas de problemas, todos sem solução. Sei que isso é terrível. Mas não consigo olhar essa questão de outra forma. Você não deve e não pode transferir a responsabilidade de sua decisão para outros, por mais confiáveis que sejam. A decisão e a responsabilidade são suas. O que posso oferecer? Ideias para reflexão, amadurecimento e formulação do processo que lhe interessa. É o que tentei.

Então, assevero: feita a análise, submetidos os resultados à reflexão, caracterizados todos os aspectos essenciais e identificadas as vantagens e desvantagens, se você chegar à conclusão de que o projeto é viável e bom para você, minha opinião é que você não deve hesitar e deve seguir em frente.

domingo, 28 de junho de 2015

A verdade

Um participante de grupo de discussão política pela Internet, sem que eu soubesse, incluiu meu e-mail no conjunto de destinatários de suas mensagens. Passei a receber matérias indesejadas. A análise dos textos que têm circulado mostra que, de um lado, os defensores de Lula fazem severas acusações a FHC. De outro, os aficionados de FHC fazem severas acusações a Lula. Pareceu-me tratar de pessoas com escolaridade superior, mas mergulhadas nas emoções e miopias de quem só enxerga as virtudes de sua facção e os defeitos da oponente. Então, enviei ao grupo o seguinte mensagem:

"Prezados senhores,
Há pessoas que amam Stalin, odeiam Hitler e desconhecem, ignoram ou abominam a verdade.
Há pessoas que amam Hitler, odeiam Stalin e desconhecem, ignoram ou abominam a verdade.
Há pessoas que amam FHC, odeiam Lula e desconhecem, ignoram ou abominam a verdade.
Há pessoas que amam Lula, odeiam FHC e desconhecem, ignoram ou abominam a verdade.
Há pessoas que amam a verdade!
Eu gostaria de interagir apenas com pessoas que amam a verdade.
Cordiais saudações, 
ARS

PS. Afirmo -- corrijo-me, se necessário --, ressalto e enfatizo: não pretendi e nem tive a intenção de comparar os líderes brasileiros com os líderes soviético e alemão; até porque estes foram hediondos e portanto incomparáveis. Comparei sim, a atitude de adeptos de líderes, sejam eles bons ou maus, hediondos ou não. Quanto a serem bons ou maus, é uma questão de preferência pessoal, condicionada às componentes genéticas, psicológicas e intelectuais, bem como à capacidade de juízo crítico de cada um."

sábado, 20 de junho de 2015

Pais autoritários ou pais com autoridade?

          No livro The smartest kids in the world: and how they got that way, a jornalista americana Amanda Ripley afirma que 

         "os estudiosos que pesquisaram as formas de criação de filhos dividiram os vários estilos de pais em quatro categorias básicas: Pais Autoritários, Pais Permissivos, Pais Negligentes e Pais com Autoridade.
          Os Pais Autoritários são disciplinadores rígidos, para os quais vigora o 'porque eu estou mandando'. 
          Os Pais Permissivos tendem a ser tolerantes e avessos ao conflito. Agem mais como amigos do que como pais. De acordo com alguns estudos, os Pais Permissivos tendem a ser mais ricos e ter um grau de instrução mais alto do que o de outros pais.
          Os Pais Negligentes são exatamente o que parecem ser: emocionalmente distantes e quase sempre ausentes. São mais propensos a viver na pobreza.
          Os Pais com Autoridade são habitantes de um doce ponto intermediário entre os pais autoritários e os permissivos. São afetuosos, compreensivos, próximos dos filhos, porém, à medida que as crianças vão ficando mais velhas, esse tipo de pais lhes dá a liberdade para efetuar descobertas, arriscar e fracassar e fazer as próprias escolhas. O estilo de criação de filhos dos Pais com Autoridade também é caracterizado por limites claros e bem definidos, regras que não estão sujeitas a negociação."

          As perguntas que hesitam em se calar: 
          (i) que tipo de pai eu sou? 
          (ii) quais as consequências de minhas ações para minhas filhas? 
          (iii) se eu perguntasse para minhas filhas que tipo de pai eu sou, qual seria a respostas delas (aliás, farei essa pergunta)? 
          (iv) independentemente do universo no qual eu me enquadre, o que posso fazer para alterar meu comportamento e melhorar a forma de orientação de minhas queridas filhas? 
          (v) o que estou fazendo para divulgar a tipologia formulada pelos cientistas? 
          (vi) enfim, o que estou fazendo para melhorar o mundo que me rodeia e, sobretudo, que rodeia as crianças lindas que ao se tornarem adultas darão prosseguimento à gestão da amostra social a que pertencem?

A punição de Neymar e os parafusos trocados

[Matéria acolhida pelo jornal O Estado de São Paulo e divulgada no Fórum de Leitores de seu portal eletrônico, em 23/Jun/2015]

Analisando-se os eventos do jogo Brasil e Colômbia, na Copa América, no Chile — e considerando jogos que o antecederam —, é certo inferir que o Neymar estava em estado de completo desequilíbrio emocional e que o problema requereria diagnóstico médico. É razoável também asseverar que faltam lideranças na seleção brasileira, capazes de fazê-lo voltar ao prumo e, nesse caso, o assunto migraria da medicina para a gestão esportiva.
No que concerne às consequências dos atos do atleta nos dois jogos do certame, constata-se que retirar o excesso de espuma em volta da bola, tocar a bola com a mão — de duvidosa forma voluntária ou involuntária — e dirigir-se com incivilidade ao juiz da partida transgridem, ofendem e maculam o estatuto vigente.

Até aí, tudo bem! Agora, quebrar a coluna do atleta (o que ocorreu no jogo com a mesma Colômbia, na Copa do Mundo, em 2014), pisar-lhe a mão e elevar o pé até a altura de seu rosto — um átimo de segundo antes do duvidoso gesto que lhe ocasionou penalidade —, independentemente de ser ação voluntária ou involuntária, não transgridem o estatuto vigente e, portanto, ficam impunes? Pode até ser! Porém, ofendem o bom senso, a lógica, a razão e a inteligência. Aristóteles formularia exemplar silogismo e inferiria: então, os parafusos estão trocados.

quarta-feira, 20 de maio de 2015

Investimentos chineses no Brasil

"O lavrador perspicaz
conhece o caminho do arado."
Homenagem a Oscar Barbosa Souto,
antigo lavrador.
In Memoriam.



VER TAMBÉM
Os chineses e o covonavírus
[Matéria divulgada pelo jornal Estadão no Fórum de Leitores de seu portal eletrônico, em 22/Mai/2015]


No que concerne ao investimentos chineses no Brasil, alardeados com grande estardalhaço pelo governo brasileiro, como a grande notícia econômica para se contrapor às crises social, política e econômica da atualidade, convém revisitar o perfil comportamental e estratégico dos chineses e indagar com que possibilidades de êxito ou insucesso os brasileiros estão se defrontando.
Na década de 1930 — como ocorre ainda hoje —, os chineses enviavam estudantes e engenheiros para estudar nos Estados Unidos. Qian Xuesen foi um desses estudantes. Ele fez mestrado e doutorado em universidades americanas, permaneceu trabalhando nos Estados Unidos e, em 1943, propôs a criação do instituto que depois passou a chamado de  Laboratório de Jato Propulsão, o primeiro do mundo nessa área científica. Em 1945, ele foi comissionado coronel do Exército americano, com a missão de integrar a equipe de cientistas que interrogariam os  cientistas alemães, presos ao final da Segunda Guerra Mundial. Durante a guerra da Coreia, Xuesen passou a ser considerado um risco para a segurança americana e colocado sob prisão domiciliar. Em 1955, depois do final daquela guerra,  Xuesen foi deportado no âmbito da troca de prisioneiros entre Estados Unidos e China. Ele voltou para seu país natal e se tornou o pai do projeto espacial chinês e do projeto de mísseis intercontinentais que hoje estão apontados para os Estados Unidos.
Em 1949, após a vitória da revolução chinesa, Mao Tse Tung foi a Moscou buscar apoio soviético. Stalin deixou o líder chinês esperando durante quase uma semana, para então recebê-lo, curiosamente, um pouco depois de meia noite. Desse encontro, resultaram acordos de cooperação de cunho estratégico, notadamente, nos campos educacionais, científico-tecnológico e militar. Mao atribuiu relevância ao possível apoio para o desenvolvimento nuclear, especialmente, em razão do lançamento, em 1945, das bombas atômicas americanas em Hiroshima e Nagasaki e a subsequente implantação pelos soviéticos de um complexo nuclear semelhante ao americano de Los Alamos, nas imediações dos montes Urais (que levou à explosão, em 1949, do primeiro artefato atômico soviético). Houve por parte dos soviéticos, a promessa de fornecimento de uma bomba atômica para que os chineses pudessem testá-la e obter dados que abreviariam o desenvolvimento sonhado. No final da década de 1950, Kruschev, que substituíra Stalin, foi a Pequim para renegociar a cooperação sino-soviética e o encerramento do projeto nuclear conjunto — obviamente, a bomba atômica não foi entregue pelos russos. Os chineses implementaram um projeto nuclear espelho, paralelo, em que todos os passos do projeto de cooperação nuclear eram reproduzidos secretamente no oeste do país. Assim, em 1968, os chineses explodiram sua primeira bomba atômica, denominada 596, que foi considerado um símbolo da honra chinesa, dado que esse número lembrava a data do rompimento do acordo de cooperação com os soviéticos (junho de 1956).
Em face do rompimento da cooperação sino-soviética, os chineses estabeleceram as prioridades estratégicas para que, em 100 anos, a China atingisse o patamar de potência dominante. Uma grande ênfase foi atribuída para educação, ciência & tecnologia e pesquisa & desenvolvimento. É oportuno ressaltar que — a par desse ponto de partida estabelecido no final da década de 1950 —, estima-se que a economia chinesa ultrapasse a americana antes de 2030; e, por volta de 2050, a China poderá, como previsto por seus estrategistas, estar ombreando com os americanos nas demais esferas do poder.
Na segunda metade do século XX, os chineses importavam radares de uso militar e civil da União Soviética e depois da Rússia. A partir da década de 1990, eles instalaram centros de pesquisa e de produção de radares. Até 2005, a indústria chinesa produziu cerca de 1000 radares de pequeno, médio e longo alcances. Evidentemente, os radares chineses apresentavam grande semelhança com os radares russos — eles eram cópias destes, obtidas por engenharia reversa. Entretanto, os chineses tinham grande orgulho de transmitir para os visitantes estrangeiros que a indústria de radares e equipamentos eletrônicos similares, localizada em Nanjing, uma das antigas capitais do país, abrigava mais de 4000 engenheiros, dos quais cerca de 1000 tinham curso de mestrado e, destes, mais da metade eram doutores. E o que impressionava os visitantes era o registro de quase 300 patentes de invenção que tornava a indústria de radares muito inovadora — isto é, eles importavam, copiavam e depois agregavam aperfeiçoamentos caracterizadores de elevado padrão de assimilação e domínio tecnológico.
Nos últimos 15 anos, os chineses despenderam ingentes esforços para a pesquisa, desenvolvimento e produção de uma determinada belonave que eles estavam em estado adiantado de pesquisa, desenvolvimento e produção industrial. Entretanto, na tentativa de abreviar o processo, eles tentaram obter tecnologia dos países detentores de produção autônoma! Não tiveram sucesso. No início da primeira década do novo milênio, o governo de país com algumas semelhanças com o Brasil articulou um acordo de cooperação militar com os chineses. Nas conversações com autoridades chinesas, o Ministro da Defesa desse país comprometeu-se em permitir exercícios conjuntos entre as respectivas forças navais, sendo que os chineses incluíram  a presença de fração militar na belonave do país parceiro. É certo que eles incluiriam nessa fração militar engenheiros altamente qualificados para realizar o trabalho de prospecção tecnológica e industrial de dados que eles buscavam para a conclusão de seu processo de produção. Ao retornar a seu país, o ministro foi alertado pelas autoridades navais das inconveniências do mencionado procedimento.  No prosseguimento da cooperação internacional e implementação do acordo, o comandante naval determinou aos negociadores que se deslocaram para a China para os acertos executivos, que não aceitassem a participação de tropa chinesa na belonave de seu país. As negociações sobre esse tópico duraram dias e os chineses repetiram à exaustão a determinação de não excluir a presença chinesa no navio de guerra. Ficou caracterizado um impasse e como argumento final, eles apresentaram documento oficial em que os respectivos ministros haviam se comprometido com essa questão. Não há informações sobre o desenlace desse acordo, mas está bem caracterizada a forma de atuação chinesa.
Essa amostra de fatos históricos, onde prevalece a interação chinesa com potências dominantes e outros países, evidencia inequivocamente a objetividade e dureza dos chineses em negociações internacionais, bem como a consciência de seus elevados interesses e a impossibilidade de renúncia à intransigente defesa e consecução de seus objetivos estratégicos.
De parte do Brasil, constatamos uma equipe governamental que pode, na atualidade, ser caracterizada pela incompetência gerencial cujos emblemas mais evidentes são o baixo desempenho econômico e o naufrágio da gestão da maior empresa brasileira — a Petrobras. Pode ser caracterizada pelos insucessos de política externa, com as perdas inquestionáveis para países como a Bolívia, Argentina e Venezuela. Ademais, as melhores metáforas para essa caracterização são a corrupção desenfreada, liderada pelos auxiliares mais próximos dos presidentes brasileiros nos últimos 12 anos e a ausência de cumprimento de compromissos assumidos de parte da própria Chefe de Governo, em repetidos pronunciamentos públicos, seja no período eleitoral ou no decorrer de seu mandato.

Então, que resultados podem ser esperados em acordos gestados entre os qualificados chineses e os brasileiros petistas da atual gestão governamental, com possibilidade de aporte de recursos na ordem de grandeza de meia centena de bilhões de reais? Que benefícios estratégicos de longo prazo estarão sendo satisfeitos nesses acordos, onde os chineses entram com o poder econômico-financeiro e o poder da experiência no sucesso em empreendimentos internacionais e o Brasil entra com a natural fraqueza de uma economia que se encontra em frangalhos e necessitando dos investimentos numa clara tentativa de salvar o que caminha para o despenhadeiro?

domingo, 17 de maio de 2015

O maior jogador de futebol de todos os tempos

Comecemos por grandes personagens de outras áreas marcadas pela genialidade. Quem foi maior em cada ramo de atividade, Sócrates, Platão ou Aristóteles?  Newton, Galileu ou Einstein? Rembrant , Da Vinci ou Picasso? Cervantes, Dante ou Camões? Rousseau, Unamuno ou Borges? Henry Ford ou Steve Jobs? Churchill ou Roosevelt?
Afinal, Messi é o maior jogador de futebol de todos os tempos? Para uma resposta afirmativa e para começar, ele teria que ser maior que Di Stefano e Maradona. Similarmente, teria que ser maior que Puskas, Garrincha, Cruyf, Platini e Iniesta. Provavelmente é maior que todos eles! Ademais, para ser o maior de todos os tempos, ele teria que marcar mais de 1.300 gols, teria que ser campeão do mundo de clubes mais de duas vezes, teria que ser campeão do mundo por sua seleção nacional mais de três vezes. Terá sucesso nessas empreitadas? O tempo vai esclarecer.
As indagações e comparações sugeridas são razoáveis? São relevantes? Que as pessoas lúcidas, inteligentes, sensatas e decentes tentem responder. É preciso elevada qualificação  e integridade ética e intelectual para que a análise seja adequada, isenta de preconcepções e correta.
Eu, de minha parte, acho que é preferível admirar os gênios da raça. Apenas! Minha homenagem a eles. Minha homenagem ao Messi, maior jogador de futebol da atualidade. Minha homenagem aos cronistas e torcedores espanhóis por serem testemunhas oculares do magnífico, extraordinário e fantástico futebol praticado pelo craque argentino — e por toda a equipe do Barcelona.
Peço desculpas por não me expressar adequadamente no belíssimo idioma de Cervantes.
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El mayor jugador de futbol de todos los tiempos [*]

[Esta matéria foi divulgada no fórum de debates do portal eletrônico do jornal Mundo Deportivo, de Barcelona, em 30/Mai/2015]
Empecemos por grandes personajes cuyas características sean la genialidad. Quien fue mayor en cada ramo de actividad, Sócrates, Platón o Aristóteles? Newton, Galileo o Einstein? Rembrandt, Da Vinci o Picasso? Cervantes, Dante o Camões? Rousseau, Unamuno o Borges? Henry Ford o Steve Jobs? Churchill o Roosevelt?
Por fin, es Messi  el mayor jugador de futbol de todos los tiempos? Para una respuesta afirmativa, para empezar, el tendría que ser mayor que Di Stéfano y Maradona. Similarmente, tendría que ser mayor que Puskas, Garrincha, Cruyf, Platini e Iniesta. Probablemente Messi es mayor que todos ellos! Ademas, para ser el mayor de todos los tiempos, el tendría que marcar mas de 1.300 goles, tendría que ser campeón del mundo de clubes mas de dos veces, tendría que ser campeón del mundo por su selección nacional mas de tres veces. Tendrá éxito en esas propuestas? El tiempo lo aclarará.
Las indagaciones y comparaciones sugeridas son razonables? Son relevantes? Que las personas lúcidas, inteligentes, sensatas y decentes traten de contestar. Es necessário elevada calificación e integridad ética e intelectual para que la análisis sea adecuada, libre de preconcepciones y correcta.
Yo, por mi parte, creo que es preferible admirar los genios de la raza. Apenas! Mi homenage a ellos. Mi homenage a Messi, mayor jugador de futbol de la actualidad. Mi homenage a los hinchas y cronistas españoles por seren testigos oculares del magnífico, extraordinário y fantástico futbol practicado por el as argentino — y por todo el equipo del Barcelona.
Pido desculpas por no expresarme adecuadamente en el bellíssimo idioma de Cervantes.
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[*] Tradução de Isabel, para remessa ao jornal Mundo Deportivo, de Barcelona.