sexta-feira, 9 de outubro de 2020

Testemunho sobre P&D de artefatos militares

A finalidade deste texto é divulgar a troca de mensagens com um amigo sobre aspectos atinentes à P&D (Pesquisa & Desenvolvimento) e produção de equipamentos militares, sob a responsabilidade e gestão do CTEx (Centro Tecnológico do Exército) — claro, valendo-me da experiência de quando lá servi de 2006 a 2009. 

As mensagens tratam de curiosidades paralelas e que quase sempre não constam dos documentos formais atinentes aos projetos. A primeira delas indagava sobre o andamento da obtenção do míssil MSS 1.2 AC (Míssil Superfície-Superfície 1.2 AntiCarro).

Não transcrevo a íntegra das mensagens recebidas do amigo interlocutor, pois além do caráter pessoal, elas podem conter dados com restrições de segurança. 

 

<Mensagem1_Amigo, 17/09/2020>

Versa sobre a solicitação de informações sobre a P&D do míssil MSS 1.2 AC. 

 

<Mensagem1_ARS, 17/090/2020>

Quando cheguei ao CTEx, o projeto de P&D  do míssil MSS 1.2 AC  estava parado há mais de 6 anos. Havia uma pendência entre os parceiros italianos e o Exército. Eles não queriam continuar o processo e nós precisávamos nos livrar deles, em especial nas questões contratuais.

Bom, na época, cheguei à conclusão de que o investimento corrigido ultrapassava 30 milhões de reais. Ora, isso não podia ser perdido. 

1.    Então, o que era preciso fazer?

1.1.  Distrato com a empresa italiana que já tinha sido comprada pelos franceses e virou MBDA;

1.2. Retomada do projeto do míssil, com atualizações requeridas, pois o tempo é crucial e causa obsolescência;

1.3. Proposta aos escalões superiores de uma encomenda, como condição para continuar investindo mais um pouco e salvar o montante total.

2.    O que foi feito?

2.1. Convencimento dos franceses, enviando à França uma equipe do CTEx e dialogando. Êxito! Eles vieram ao Brasil e, na LAAD de 2007, o Chefe do DCT e o figurão deles assinaram o distrato;

2.2. Ajuste com a empresa brasileira Mectron para a retomada do projeto, em parceria com a Divisão de Mísseis do CTEx. Era tudo que o pessoal da Mectron queria.

2.3. Proposta ao EME para a continuidade do projeto, com o aporte de recursos. Essa atribuição não me cabia, era problema do Chefe do DCT. Ele bancou. Fiz o ‘lobby’ possível nas duas instâncias superiores.

2.4. Surgiu um problema: como a encomenda do Exército era pequena, a Mectron não poderia bancar a Linha de Montagem. Saída: interagir com o setor de P&D de operacional da Marinha e buscar a participação conjunta no projeto. Os mísseis eram uma demanda dos Fuzileiros Navais. Êxito!!!

Saí do CTEx e deixei o contrato de aquisição assinado. Não me lembro a quantidade. Acho que foi cerca de 60 unidades. Os marinheiros encomendaram uma quantia maior. Li uma reportagem que os Fuzileiros Navais receberam sua encomenda (ou parte). Já faz algum tempo.

Se possível, vou procurar saber o desfecho preciso. Quando sai do CTEx, procurei fechar os olhos e ouvidos para o que estava ocorrendo lá (ensinamento de um combatente de escol).

Fraterno abraço,

RS

 

<Mensagem2_ARS, 18/09/2020>

Amigo, ontem estava meio tenso, com exames cardiológicos e uma batida do carro da esposa (nada grave, apenas uma luta titânica contra o Leviatã da burocracia).

Por isso, fiz referência correta, concernente a uma semelhança entre o pessoal da Marinha e os argentinos. Pelo risco de má interpretação, eliminei-a em minha cópia. Por favor, elimine-a ou desconsidere-a.

Abraço

RS

 

<Mensagem2_Amigo, 18/09/2020>

Esta mensagem trata da relevância das informações contidas na Mensagem1_ARS. Adicionalmente, contém questionamento sobre a interação com os franceses.

 

<Mensagem3_ARS, 18/09/2020>

Em relação à indagação sobre as peculiaridades dos franceses, aí é outra história. Interessante ! ...

[1] Estrutura de P&D militar francesa

Os americanos e os britânicos, quer dizer, o Roosevelt e o Churchill consideravam o De Gaulle um interlocutor difícil (no popular: um chato!). O Roosevelt prometeu apoio para o desenvolvimento científico-tecnológico francês após a guerra, dado que, com a invasão nazista, os franceses colocaram seus cientistas nucleares (herdeiros de M. Curie e os 5 prêmios Nobel da família !!!) para apoiar os americanos.

 

A família de Marie Curie é detentora de 5 prêmios Nobel, assim especificados:

– Marie Curie ganhou o Nobel de Física, em 1902;

– Marie Curie foi lareada com o Nobel de Química, em 1911, tornando-se o único cientista da História a ganhar dois prêmios Nobel, em duas áreas distintas da Ciência;

– Pierre Curie ganhou o Nobel de Física, em 1902, em parceria com a esposa, Marie Curie, e com o cientista Henri Becquerel;

– Irène Joliot-Curie ganhou o Nobel de Química em 1935; e

– Frédéric Joliot-Curie foi laureado com o Nobel de Química, em 1935, em parceria com a esposa Irène Joliot-Curie.

Os outros ganhadores de duas láureas foram: 

– Linus Pauling — de Química, em 1954, e da Paz, em 1962 (este fora portanto do campo da Ciência); 

– John Bardeen — ambos em Física, em 1956 e em 1972 ; e 

– Frederic Sanger — ambos em Química, em 1958 e em 1980.

 

De Gaulle queria bomba atômica, submarinos e porta-aviões nucleares.

Após a morte de Roosevelt, o De Gaulle foi cobrar do Truman o apoio prometido. Este falou que não havia documento sobre o tema (foi tratativa oral) e negou a promessa. O De Gaulle pegou as instituições de C&T de cada uma das três forças armadas francesas e constituiu uma quarta força, com uniforme próprio — a fortíssima DMA, que mais tarde se chamou DGA, com status de ministério (Délégation Ministérielle pour l’Armement, DMA, que depois se chamou Direction Générale de l’Armement, DGA).

Consequência: mais tarde, os franceses conseguiram produzir a bomba A, a bomba H, os submarinos e os porta-aviões, sem grande apoio americano.

[2] Visita de comitiva militar francesa ao CTEx

Em 2007, recebi ordem do EME para receber uma comitiva de militares franceses no CTEx. Perguntei quais eram nossos objetivos. Foi dito que era para enrolar os gringos (uso uma palavra forte para definir objetivos sem consequência).

Um general e alguns coronéis franceses chegaram no CTEx, acompanhados de um Embaixador nosso.

No cafezinho de abertura mencionei, em francês, uma frase seminal do De Gaulle, pela BBC, em 1941, conclamando os franceses a resistir aos alemães: 

“Soldats français, marins français, aviateurs français, où que vous soyez, rejoignez-nous pour défendre la patrie ...”. 

[“Soldados franceses, marinheiros franceses, aviadores franceses, onde quer que vocês se encontrem, reúnam-se a nós para defender a Pátria ...”]

Adicionalmente, transmiti a reação de Pierre Clostermann — nascido no Brasil e, em 1945, aos 25 anos, o maior ás da aviação de caça francesa de todos os tempos —  por ocasião da morte de De Gaule: 

“De Gaulle est mort hier soir. J’ai pleuré. Étai-ce sur moi ou sur la fin de quelque chose qui me dépasse? [...] Comme l’a écrit Roman Gary, ami et mon compagnon dans l’Ordre de la Libération: ‘Un vieil homme est parti emportant avec lui notre jeunesse; cette jeunesse que nous lui avion apportée volontairement à Londres!’”

[“De Gaulle morreu ontem à tarde. Eu chorei. Por minha causa ou por qualquer coisa que está além disso? Como escreveu Roman Gary, amigo e companheiro da Ordem de Libertação: ‘Um velho homem se foi, levando consigo nossa juventude ... a juventude que nós lhe entregamos voluntariamente em Londres’ ”].

Reproduzo de memória com o risco de imperfeição, mas era algo parecido com o que ora transcrevi. Até o Embaixador ficou surpreso. 

 

Pierre Clostermann e Roman Gary. A amizade foi iniciada quando ambos eram pilotos de guerra na Força Aérea da França Livre, em Londres, durante a Segunda Guerra Mundial. 

Gary nasceu na Lituânia, mudou-se para a França e tornou-se cidadão francês. Após o término da guerra, Gary tornou-se notável escritor, diretor e roteirista de cinema. Foi co-autor do roteiro do filme “O mais longo dos dias” (“The Longest Day”) e, por seus contatos com a sétima arte, foi marido da atriz Jean Seberg. 

Gary foi o único autor a ser galardoado duas vezes com o prêmio Goncourt, o mais importante da Literatura francesa. O procedimento para a concessão dessa comenda impunha que só fosse concedida uma única vez para a mesma pessoa. Para ganhar a segunda vez, ele concorreu com o pseudônimo Émile Ajar, fato que só foi esclarecido após sua morte, por suicídio com arma de fogo. Antes de Gary, Jean Seberg foi encontrada morta no carro às margens do Sena. No âmbito de um processo de depressão, Ela consumiu uma superdose de bartitúricos.

Afora a autoria de 11 livros, Clostermann foi deputado na Assembleia Nacional francesa em sete mandatos sucessivos. Foi presidente de uma empresa francesa fabricante de aviões e vice-presidente da Cessna.

 

 

Os militares franceses visitantes queriam acertar com o CTEx um processo de desenvolvimento de P&D conjunto e, como ponto de partida, começaria pelo Rádio Definido por Software. Eu mencionei que se o De Gaulle fosse brasileiro e considerasse benéfico para os dois lados, então nós estaríamos prontos.

Na continuidade, eu criei um constrangimento.  Como eu percebi que na essência eles queriam vender produtos. Não se tratava bem de P&D do Rádio. 

Eu peguei os folhetos que tinha obtido no pavilhão francês da 2007 Defence and Security Equipment International (2007 DSEI), em Londres (que eu tinha visitado 4 meses antes) e disse que topava fazer um projeto conjunto, em que um dos objetivos era a transferência de tecnologia. Aí, passado o desconforto, eles disseram que não podiam, explicando o longo caminho para a concretização das metas. Ingenuamente, transmiti a ideia de que desconhecia a estrutura e os procedimentos que alicerçam a Ciência & Tecnologia e a Pesquisa & Desenvolvimento.

[3] Distrato da P&D conjunta do míssil MSS 1.2 AC

Para assinatura do distrato do MSS 1.2, o Diretor da MBDA francesa (que comprou a empresa italiana parceira nossa, contratada inicial para o desenvolvimento do míssil) veio com um especialista em míssil, um advogado perito em contratos internacionais e um outro especialista em empreendimentos militares (filho de francês com brasileira), e que falava os dois idiomas muito bem.

Foram dois dias de debates, em que eles tentaram manter a propriedade da tecnologia e nós só poderíamos dispor dela mediante autorização. Claro que não aceitamos essa solução e, por pouco, o acerto não foi pro brejo.

Em nosso pavilhão, na LAAD de 2007, o chefe do DCT e o Diretor da MBDA assinaram o distrato do desenvolvimento conjunto do míssil, de acordo com o interesse das duas partes.

[4] Visita do CTEx à empresa fabricante de helicópteros em Marselha

Na compra de helicópteros franceses pelo Exército Brasileiro, embora o CTEx não tenha participado das tratativas e negociações, eu tentei pegar carona. 

Por ocasião da visita, em 2009, à 9th Internatinal Defence Exhibition Conference, em Abu Dhabi, no Emirados Árabes Unidos (a maior exposição de material de defesa do mundo), consegui autorização para na volta passar em Marselha.

Como nós estávamos próximos de produzir o Simulador SHEFE (para treinamento de piloto de helicóptero Esquilo e Fennec), a ideia era emendar e ter também o Simulador para o novo helicóptero francês.

Era preciso apoio deles, para fazer pelo preço compatível do SHEFE. O Simulador do helicóptero deles custava o dobro do preço de um helicóptero (mais de 15 milhões de euros).

Eles não sabiam, mais se nos dessem o apoio requerido, nós faríamos com menos de 8 milhões de reais (acredite se quiser !!!).

No primeiro dia, eles manifestaram entusiasmo, abriram as portas. Mais aí perceberam a qualificação do coronel Castelo e do capitão Moutinho.

No dia seguinte, fecharam as portas. Cortaram a transmissão de informações e nem deixaram a gente chegar perto do helicóptero de ponta deles, que ainda estava sujo, pois tinha acabado de chegar do Iraque ou proximidades.

Aproveitamos umas poucas coisas da visita. O longo voo que fizemos no Simulador no primeiro dia foi importantíssimo para o Moutinho adquirir uma visão quase completa das possibilidades desse artefato de treinamento de pilotos.

[5] Aquisição do radar secundário para o radar SABER M-60

No desenvolvimento do radar SABER M-60, um dos componentes importantes é uma espécie de radar secundário, com tecnologia um pouco antiga, que nós não dominávamos. A empresa Thales francesa comercializa esse equipamento (a rigor, eles fornecem também o radar de defesa antiaérea, do qual o secundário é um componente). No início de nosso projeto, consultamos a Thales e recebemos a informação de que eles nos venderiam. Não tinha cabimento perder tempo precioso na P&D de peça fora da fronteira tecnológica e disponível no mercado. Quando chegou a hora aprazada, fizemos a consulta formal e sabe o que ocorreu? Eles, que a priori não acreditavam que fôssemos capazes do respectivo desenvolvimento, mudaram e responderam: <<Non monsieur! Désolé, ce n'est pas possible!>>.

E não pararam por aí. Solicitaram audiência ao Comandante do Exército, aventaram a possibilidade de comercialização do radar de defesa antiaérea fabricado pela Thales e — da forma que mais lhes convinha —, informaram ao Comandante que a empresa brasileira Orbisat não tinha condições de desenvolver o radar e estava tentando fazer uma cópia de similar estrangeiro. Eles evitaram mencionar o CTEx, que na realidade tinha a responsabilidade pela gestão do projeto. Os fatos narrados dispensam qualquer juízo de valor.

A solução dada pelo CTEx foi curiosa. Descobriu-se que os poloneses fabricavam e concordavam em  fornecer o radar secundário requerido. O CEO da empresa parceira, a Orbisat, estava de partida para a China e dispôs-se a fazer um desvio e escala em Varsóvia, para acompanhar o coronel Castelo, gerente do projeto, na compra do componente polonês. Como não havia tempo de adotar os procedimentos administrativos de forma oportuna, cogitei de dar dispensa como recompensa para o Castelo, para que ele fosse à Polônia. O embarque seria dentro de três dias, a partir da identificação da solução.

Como sempre que adotava alguma solução fora das previsões normativas, fazia questão de informar ao escalão superior. Então, em face da urgência, entrei em contato com o Gabinete do Comandante para dar conhecimento da viagem do Castelo. Com elegância e lhanura no trato, a autoridade interlocutora desaconselhou o procedimento e sugeriu que enviasse o pedido de autorização para a viagem. Repliquei que dessa forma perderia a oportunidade de agir com o apoio logístico e financeiro da empresa parceira. Com a flexibilidade requerida, a autoridade orientou (orientou não; determinou!): “Envie o pedido de autorização e ao mesmo tempo libere o coronel para viajar. Uns 30 dias após a volta da viagem, vocês receberão a portaria e se ele tiver algum acidente grave, você e ele estarão amparados. Uma eventual explicação de inconsistência de prazo é outra história; e muito mais fácil!”. E assim os radares secundários foram adquiridos e o radar SABER M-60 se tornou realidade sem a participação francesa. Ainda bem!

Enfim, na exposição LAAD subsequente os poloneses enviaram o Ministro da Defesa ao Brasil para interagir conosco diante da possibilidade da comercialização de 40 a 60 radares secundários e outros artefatos (como estratégia de negócio, na compra de três radares secundários, eles foram informados de que as possíveis necessidades do Exército poderiam atingir o montante citado).

O coronel Roberto CASTELO Branco Jorge era o gerente do projeto Radar SABER M-60 e o capitão Maurício MOUTINHO Silva era o gerente do Simulador SHEFE. Na companhia de outros engenheiros brilhantes, líderes e comprometidos (como o coronel Castañon, major Eifler, ... et al) — apenas uma amostra que indica lapsos de memória e me submete à imposição da injustiça de não citar todos), eles constituem a plêiade de anônimos transformadores da realidade nacional de defesa.

Os artefatos citados são conquista das valorosas equipes do CTEx, em parceria com universidades e empresas. Eles são parte do seguinte conjunto de materiais bélicos que jamais tinham sido pesquisados, desenvolvidos e produzidos no Hemisfério Sul, por nacionais, com recursos e empresas nacionais:

– Radar Saber M-60 (Sistema de Acompanhamento de alvos aéreos Baseado na Emissão de Radiofrequência M-60);

– Simulador SHEFE (Simulador de treinamento de piloto de Helicóptero);

– Sistema REMAX (plataforma da metralhadora .50 para o blindado Guarani);

– Sistema MAGE (Sistema de Medidas de Apoio à Guerra Eletrônica);

– MTO (Módulo de Telemática Operacional); e

– Simulador Não Com (Simulador de Não Comunicações).

Outros projetos reforçam a qualificação dos engenheiros do CTEx e podem também ser destacados:

– Viaturas Chivunk e Gaúcho;

– Simulador de Tiro de Pistola;

– ALAC (Arma Leve AntiCarro);

– Morteiros 60 mm, 81 mm e 120 mm; e

– VANT VT-15 (Veículo Aéreo Não Tripulado-15) – aparentemente após a conclusão do protótipo, não teve prosseguimento.

A maioria dos resultados citados estão em uso no Echo Bravo de Sampaio, Osório, ...!

 

Simplificando, a gente aprende muito negociando com os franceses. Eles são uns ‘son of a bitch’ em estado puro.

Abraço fraterno,

RS

 

<Mensagem3_Amigo, 18/09/2020>

Versa sobre tentativas de obtenção de sistemas simuladores e da similaridade entre o sistema SIMACA, para Artilharia e o Simulador SHEFE, para treinamento de piloto de helicóptero.

 

<Mensagem4_ARS, 19/09/2020>

Como você conhece o Simulador SHEFE, vou jogar um pouco mais de conversa fora. Como é que ocorreu a P&D dessa inédita conquista?

No início, eu escolhi um capitão de 33 anos para a gerência do projeto. Como, com essa idade ele já era PhD numa área afim, entendi que era a decisão correta. Doutorado em universidades boas é somente para privilegiados.

Com dois meses, foi constatado que ele não aguentava o tranco. Um misto de problema de saúde com inflexibilidade indicaram a substituição. Então, escolhi o capitão Moutinho para tocar o projeto. Por que?

O Moutinho fez mestrado na Universidade de Cranfield, ligada ao Ministério da Defesa britânico. Ao final, ele ganhou 4 prêmios, no universo de 600 mestrandos de 41 países (claro, a maioria britânicos). E ganhou também um doutorado no valor de 90.000 libras.

Com 8 meses à frente do projeto do Simulador, ele chegou pra mim e disse que fora chamado para retornar a Cranfield e fazer o doutorado. Disse-lhe para preparar a documentação e eu agiria junto ao EME para viabilizar a ida com apoio do Exército. Ele me respondeu que não iria porque “o  projeto do Simulador não tinha atingido a situação de ‘Não-Retorno’ ”. 

Alguns meses se passaram e, num despacho, o Moutinho me disse que era piloto. Ótimo, respondi, isso facilita seu trabalho. Ele riu e disse que, como não tinha dinheiro para pagar hora de voo, 4 anos atrás, ele projetara e construíra um simulador para simular o voo em seu apartamento. Nunca tinha dito isso na caserna.

Um dia, o dono da empresa parceira (de São José dos Campos, pequena e com uns outros 3 ou 4 projetos de outros clientes) fez uma espécie de reclamação, por óbvio, meio rindo. Ele disse que o Moutinho assumiu, por telefone, a gestão de sua empresa; e os demais engenheiros e funcionários só faziam o que o Moutinho determinava. O cara ria porque era preciso apoio do IME, ITA e até da USP. Isso só o Moutinho desenrolava.

Nesta narrativa, cabe uma observação sobre recursos humanos. Em 2010, visitei um centro de P&D chinês e também fábrica de produtos eletrônicos, com mais de 1000 radares produzidos. Eram 4.000 engenheiros, mais de 500 doutores e mais de 1000 com mestrado. Não devemos nem podemos copiar o que os chineses fazem, mas devemos agir nas proporções adequadas e requeridas.

Virou novela, mas devo lhe dizer que foi preciso vencer resistências no Comando de Aviação. O tenente-coronel encarregado da seção que cuidava de voo por instrumento não queria saber de nosso trabalho — ele declarou que faria simuladores com seus sargentos mecânicos de helicóptero. E também na DMAvEx e até no EME. Se eu tratasse da questão com o formalismo habitual (no meu nível hierárquico e de gestão), o fracasso era provável. Solução: orientava o Moutinho para tratativas no nível hierárquico dele, com interlocutores majores e tenentes-coronéis. O caboclo tem uma inteligência emocional fora do comum e conseguiu vencer as resistências.

O Simulador ficou pronto !!!

E o Moutinho, onde anda?

Foi chamado uma segunda vez para o doutorado e por razão similar recusou. Um ano depois que saí do CTEx, ele me ligou para dizer que na terceira vez, aceitou o chamado. Foi para Cranfield, retornou PhD e, 4 anos após ter completado o tempo obrigatório de permanência no serviço ativo, pediu transferência para a reserva.

Hoje é consultor da AIEA em Viena. Não foi indicado pelo governo brasileiro. Conquistou por seus próprios méritos.

O que eu faria com o Moutinho, se poder tivesse? Criava um instituto de P&D para ele chefiar até morrer. A União Soviética fez isso com o Stanislav Shumovski, que levou a tecnologia de artilharia, de aviação e nuclear dos Estados Unidos para seu País; o Paquistão fez isso com o Abdul Khan, o doido que depois de dominar a tecnologia da bomba atômica, queria vendê-la para outros países; a China fez isso com Qia Xuesen, o pai dos programa de mísseis intercontinentais chineses; e os Estados Unidos fizeram algo parecido com o Robert Oppenheimer (padastro das bombas atômicas jogadas em Hiroxima e Nagasaqui que, entre outras dúvidas, namorava uma comunista e portanto era suspeito).

Enfim, cada doido com sua circunstância. Uma análise cuidadosa mostra que caboclos desse naipe são responsáveis por grandes transformações.

Eu até acho que você não tem o desplante de ler as bobagens que escrevo. Como tem o isolamento da pandemia, tudo é possível.

Abraço fraterno,

RS

 

<Mensagem5_ARS, 21/09/2020>

O relato relativo à situação do Míssil MSS 1.2 AC refere-se ao período em que chefiei o CTEx, isto é, de 2006 a 2009. Seguem informações adicionais.

A partir de 2010, quando fui para o DCT, o projeto teve andamento e enfrentou três problemas sucessivos ao longo dos últimos 10 anos.

P1. Problema técnico. Os mísseis produzidos não funcionavam por falha do giroscópio. Essa questão foi equacionada.

P2. Problema administrativo. A empresa parceira Mectron foi comprada pela empresa Odebrecht. Em 2016, esta saiu do setor de Defesa (a corrupção devia ser mais rentável ...) e uma empresa chamada SIATT herdou o espólio e prosseguiu com o projeto do míssil.

URL da SIATT: https://www.siatt.com.br/siatt/

P3. Problema técnico - O míssil não funcionou adequadamente por falha no Receptor Laser.

Eu não tenho dados para fazer juízo de valor sobre a eficácia dos trabalhos no período de 2010 a 2020. Posso afirmar que o sucesso da maioria dos empreendimentos, em especial de P&D, depende de dois aspectos imprescindíveis: “sorte” e talento. Traduzindo, é razoável asseverar que, em uma visão mais estruturada, podemos elencar dois componentes: um cérebro excepcional (como por exemplo: os brasileiros Moutinho, Castelo e outros, o americano Robert Openheimer, o soviético Stanislav Shumovski, o paquistanês Abdul Khan e o chinês Qia Xuesen, ...); e disposição incomum para enfrentar o Leviatã (conjunto de obstáculos normalmente enfrentados em empreendimentos complexos).

E o futuro? A disponibilidade do míssil MSS 1.2 AC para as forças armadas brasileiros está condicionada a três circunstâncias favoráveis:

(i)       o Exército precisa e quer o míssil, vale dizer, o artefato não está obsoleto para a nossa realidade;

(ii)     o atual Chefe do CTEx demonstra robusta vontade e acredita na possibilidade de finalizar o projeto com sucesso (os engenheiros do CTEx e a empresa SIATT têm que resolver o problema técnico e o CAEx tem que fazer a Avaliação Operacional); e

(iii)   aparentemente, a Marinha continua interessada no êxito do projeto. Os mísseis que ela recebeu não funcionam com eficácia e ela tem necessidade e tem vantagem com a cooperação.

Esses são os dados e respectiva percepção. Como muitas outras coisas na vida, precisam ser confrontados com os dados e respectivos juízos de outras pessoas ou instituições. Possivelmente, eventuais incorreções do que mencionei são pouco relevantes e não retiram a validade das conjecturas e inferências.

Fraterno abraço,

RS

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domingo, 20 de setembro de 2020

Mensagem para minhas filhas

"O lavrador diligente conhece o caminho do arado".
Homenagem a Oscar Barboza Souto, antigo lavrador, garimpeiro e comerciante.
In Memoriam.

Estou em Brasília, onde penso, respiro, suspiro e me alimento do carinho de minhas filhas queridas e amadas, do sorriso e da tristeza, do silêncio e do discurso ou qualquer outra coisa proveniente delas e das respectivas beleza, generosidade, amizade, transparência, afeto e camaradagem, nesta véspera da primavera ou qualquer outro dia lindo e luminoso, claro e cristalino, azul como o céu que o emoldura, suave como a temperatura amena da estação que amanhã se inicia.

 

É o que penso, imagino e reflito; bem pensado, bem imaginado e bem refletido. E por tratar-se de algo em que acredito e creio de forma inabalável, com meu pensamento, minha estrutura física e psicológica, faço questão de registrar nestas mal traçadas linhas — mas que são traçadas com boa fé, inigualável intenção e com a mais absoluta consciência da verdade e das boas maneiras, atitudes e procedimentos — e de dar-lhes conhecimento pleno, completo, honesto, de uma honestidade à toda prova, de dia e de noite, na chuva e na ausência dela, no inverno e no verão, no céu e na terra, de avião ou de automóvel ou em qualquer outra circunstância favorável ou desfavorável e para todo o sempre.

20 de setembro de 2020

Aléssio Ribeiro Souto

terça-feira, 25 de agosto de 2020

Mensagem para um engenheiro


Caro amigo ..., 

Quem escolhe a Engenharia decide alterar a realidade para o bem do ser humano. Isso é arte. Engenharia é arte. E quem vive com arte faz a opção pela elegância e abraça a vocação da nobreza. 

No Dia do Soldado estou meio Filósofo. Valho-me dessa bobagem ou dessa virtude (como bem aprendemos na Engenharia, depende do referencial ...) para cumprimentá-lo efusivamente pelo emprego de energia, força e fé na busca das metas colimadas nas sendas do destino, bem como nos estímulos e motivações que só um mestre e engenheiro pode sonhar e empreender. 

Queira notar que estou distante da aridez e objetividade dos textos do João Cabral de Melo Neto, sem jamais chegar próximo ao lirismo do Carlos Drummond de Andrade (enquanto aluno e professor, e também por isso, grandes amigos, Cabral e Drummond ficaram 30 anos sem se falar por causa de suas tendências literárias dissonantes). 

Forte abraço,

ARS


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sábado, 8 de agosto de 2020

Oscar Barboza Souto – A Life and Many Struggles

These poorly drawn lines deal with the trajectory of an ordinary and anonymous citizen, like thousands of others — a former farmer and diamond searcher. He was curious, perceptive and with a singular and constructive mental fertility, which made him capable of going beyond what the instruments of a limited formal education allowed — emphasize: in his whole life, he attended less than one school semester.

Well, Oscar Barboza Souto was born in Jequié-BA, on August 22, 1913. He is the son of José Francisco Souto and Júlia Barbosa Souto. He had the following brothers: Liberalino, Floripes, Jonias, Jesulino, Marinha and Aléssio.

At seven, Oscar lost his father. As a state tax collector, José Francisco had been murdered.

José Francisco's destiny

José Francisco [i], husband of Júlia [ii], was a state civil servant in the city of Jequié-BA, and worked as a tax collector, especially in rural production.

In addition to their consanguineous children [iii] [iv], José Francisco and Júlia had an adult child, named Aniceto. His foster father gave him a place to cultivate the land.

In the beginning of 1921, José Francisco went to the rural region with the objective of carrying out the usual tax collection. On the way back, Aniceto was waiting for him and addressed him, asserting that he would pay the debt related to the taxes on his small property and handing him the amount due. At that moment, surprisingly, Aniceto drew a gun and shot José Francisco and then ran away. The shot caught the arm, but as the ammunition was poisoned, the victim died about two hours later.

The dramatic death resulted from committing crime, the executor being someone who would never be suspected. The principal was not identified, but the most likely hypothesis was that he was dissatisfied with the tax collection work carried out by José Francisco.

At that time, in the Brazilian northeastern interior, there was a superstition that if the dead were buried face down, the murderer would not be able to escape. A week after the fatal event, friends of José Francisco found the executioner by opening the victim's grave — he wanted to put the corpse in the correct position. Aniceto was arrested, asked for water and received a mug of poisoned water. He left this world in the same tragic way that caused the cowardly departure of his creative mentor.

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[i] José Francisco Souto was born on 11/18/1887.

[ii] Júlia Barbosa Souto was born on 12/04/1885.

[iii] In 1921, among the sons of José Francisco and Júlia, Liberalino was 12 years old, Floripes 10 years old, Oscar 7 years old, Jonias 5 years old, Jesulino 4 years old, Marinha 2 years old and Aléssio 8 months old.

[iv] Floripes married at the age of 15 and died in the birth of the 5th. son, aged 20.


       From early adolescence to nineteen, Oscar fought as a sales assistant in the dry and wet warehouse of the Italian merchant Domingos Colavolpi, in Jequié; in the harvest and primary processing of cocoa, the main input in the production of chocolate; and as an assistant to animal cargo transporters, in support of equestrian transport of cocoa.

Contribution of cousin Liba - Aug 23,  2020

I sent the first version of the text “Oscar Barboza Souto - One Life and Many Fights” to cousins Liba (daughter of Uncle Liberalino), Júlia (daughter of Aunt Marinha) and Hemetério Neto (whose grandparents are Aunt Jonias and her husband Hemetério) . They responded with elegant and motivating comments. Liba, a lawyer and social chronicler in Ilhéus-BA, is in the United States, where she went in March this year; and, in the face of the coronavirus pandemic, it will remain until mid-September. Júlia, a retired teacher, and Hemetério Neto, a businessman, are enjoying the pandemic isolation in São Paulo, where they live.

In an exchange of messages with cousin Liba, she mentioned facts unknown to us, from Mato Grosso, related to the Barbosa Souto family, from Jequié.

After the death of Grandpa José Francisco, Grandma Julia reconstituted the family in the mid-1920s, joining Vicente Calot. This union proved to be a disaster and did not last long. In addition to other problems, there were mismatches between the stepfather and the stepchildren, especially Liberalino who left home and — with the support of the Colavolpi family, a friend of grandpa José Francisco — went to study at a boarding school in the city of Jaguaquara.

Grandma Júlia had a reasonable financial situation, as a result of the inheritance of her father, Sabino Barbosa; and she mantained in her first marriage. It is worth breaking the narrative sequence to emphasize the knowledge of the name of our paternal great-grandfather, Mr. Sabino Barbosa! The smart-ass Calot warned Julia that he was going on a business trip; and in possession of the troop of animals transporting and various other goods, which belonged to the family, he went away and disappeared forever.

These events stimulated the brain to question old doubts. Oscar never mentioned the reasons why he left Bahia and only returning after two decades; and he never spoke to his children, the questions concerning the union of his mother Julia with Calot. Is the explanation in the drama experienced by the family and the impact on himself? Or was it the unsuccessful failure of a loving interaction? The answer is buried with everyone who is gone forever.


        In 1933, Oscar left Jequié and headed for the southeast region of the country. He worked in various menial services in Minas Gerais; and later on deforestation, for agriculture and livestock in the interior of São Paulo. The state of São Paulo was beginning the evolution process that elevated it to the status of the richest unit in the Federation. Oscar and a group of Bahia born guys were immersed in the arduous process of preparing the land for the production of wealth. There was a black man to whom the colleagues made bullying — the color was the main reason. If it were today, there would be an accusation of racism. He got rid of any constraints due to his attitude — he was polite, cheerful and he was always ready to support his companions in all tasks. Well, one of those nights, he was found shattered and completely disfigured. He had been attacked and partially eaten by a jaguar.

Faced with the unfortunate event, at the end of the 1930s, Oscar decided to leave his job and go to the north of Mato Grosso, in the vicinity of Cuiabá, where he spent some years in the diamond searching. The prospect of finding a diamond large enough to allow the fortune, was the great stimulus. Oscar reported that he had obtained a valuable diamond, marketed for an extraordinary sum. He went to São Paulo, ordered a half dozen suits and spent half the year enjoying life and compensating for the difficult days, in which he was always immersed in insane work.

As time went by, the resources obtained became scarce and, in 1941, Oscar decided to return to the diamond searching activity. Before, he had decided to visit the banks of the Aquidauana River - in the vicinity of Campo Grande, the current capital of Mato Grosso do Sul. So in  the municipality of Rochedo, 80 km from Campo Grande, he met the family of farmer Antonio Ribeiro de Oliveira. When he saw his teenage daughter Alaide, who was 13, he declared that he would someday return from the north of the state - where he was headed - and propose marriage to her. 

After three years, Oscar left the diamond searching in the northern part of the state, moved to the Rochedo region and went to work on Antonio's farm. As he had considered, he began to court the young Alaide and the following year she accepted the marriage proposal. On September 23, 1944, Oscar Barboza Souto and Alaide Ribeiro de Oliveira were married.

Contribution of bro Aloizio - 23 / Aug / 2020

After a long conversation with my brother Aloizio — whose privileged memory contributed to the accuracy of some data on the trajectory of our father Oscar — it is worth adding the following observations:

- between 1933 and 1941, after leaving Bahia, in addition to working in Minas Gerais and São Paulo, Oscar also worked in Espírito Santo, in manual services; and in Santa Catarina, in a coal plant;

- in 1941, on his way to Mato Grosso, he traveled the state from south to north, passing first in the Rochedo bands, where he had his first contact with Antonio Ribeiro de Oliveira and his daughter Alaide, then 13 years old;

- from 1941 to 1944, Oscar worked in diamond mining in the north of Mato Grosso, close to Cuiabá;

- in 1943, the diamond was discovered, allowing Oscar to spend almost six months in São Paulo, spending the proceeds from the sale of valuable carbon in tourism and leisure;

- after the season of long vacations, Oscar returned straight to the mining in the north of Mato Grosso; and

- in June 1944, finally Oscar went to Antonio's farm, where he established the connection with his conjugal and family destiny.

I kept the initial version unchanged, since the text reflects the perception of events at the time it was written; and also because the differences are irrelevant. However, this version of Aloizio is accurate and correct.


       Oscar continued to work on his father-in-law's farm. As he was a worker, organized and tireless, he contributed to enhance agricultural and livestock production, which generated conflict with his brothers-in-law, because of the claim that he wanted to take possession of the family's assets. Dissatisfied with the lack of recognition and disruptive rumors, he agreed with his wife that they would leave the farm and disappear in search of their own destinies. The decision shocked the in-laws, who resigned, proposed that the couple leave the headquarters of the farm as well as the usual chores and move to one end of the property — in this way, the misinterpretations, within the family, would cease.

So it was done. In 1946, Oscar and Alaide rode on horseback to the indicated region, where they built a ranch, so that they could, somewhat precariously, start a new phase of life. Oscar went on to work in the fields, raise livestock, and thus guarantee the family's livelihood by cultivating the land and cattle. They had a first child, José, who died in 1947, with 11 days of birth. From 1949 to 1955, the children Aléssio, Agton, Angeliqui, Aloizio and Edna were born.

In order for the heirs to study, in 1957, there was a move to Rochedo, at the time, with about 2000 inhabitants. Initially, thanks to the friendships he had conquered — a merit of the convincing conversational man born in Bahia — Oscar was appointed notary of the Civil Registry Office. The documentary management of births, deaths, public deeds, powers of attorney and other activities replaced the heavy work that Oscar had to deal with in deforestation, mining and farming. As the resources obtained were insufficient, he disposed of the scarce goods accumulated with agricultural activities and acquired a decadent store, almost in the process of insolvency, and transformed it into a stable establishment, with businesses in fabrics, clothing, haberdashery and dry goods and wet. After four years, he was dismissed from the Registry and appointed Judge of Peace, having dealt with conflict management in a municipality without a judicial system, for another four years. Commerce proved Oscar's primary calling. In addition to the success resulting from the skill of entrepreneurship, its commercial establishment added a pioneering spirit in the sale of fuels and medicines, since there was no gas station or pharmacy in Rochedo.

Oscar's leadership led him to become president of the political party, the former PSD. In this situation, in the late 1950s, he attended the party's regional convention in Cuiabá. This event was a source of great satisfaction and he was proud to show the photo taken in the company of Senator Filinto Müller and President Juscelino Kubstchek.

In the face of inexplicable reason, Oscar spent 25 years without giving news to relatives in Bahia. In 1960, he decided to adjust the course, break the silence and surprise the forgotten relatives. He left the trade in the hands of his wife and younger children and traveled to Jequié. It was an unforgettable event. He learned that after 15 years of absence, mass had been celebrated for his disappearance. Aside from the memorable meeting with brothers and — most of them unknown —, he saw dear mother Julia again, a year before his death.

In the school in Rochedo, education reached the last year of primary education. Then, to continue their studies, the children left home and went to Campo Grande. In this way, the five heirs gained access to higher education. Aléssio became an Army officer and engineer, Angeliqui graduated in Pedagogy and Aloizio graduated in Law. Although he did not complete the Economics course, Agton became an accounting technician and a business professional; and Edna did not finish the college she started, but became an accounting technician and a housewife.

Oscar and Alaide experienced the emotions of the graduation of three children. In Aléssio's graduation in Military Sciences, the couple had the opportunity to attend the military ceremony at the emblematic Military Academy of Agulhas Negras, in Resende-RJ; complemented by the solemn mass at Candelária church and the gala dance at Tijuca Tennis Club, both in the city of Rio de Janeiro. They were proud of Angeliqui's progress in teaching and teaching coordination. They experienced the joy of Aloizio's evolution in the search for peace and harmony in the field of law. Both have been involved in commerce for almost two decades and, therefore, have similarly appreciated the work of Agton and Edna in activities related to commerce.

Aloizio's contribution - Aug 24, 2020

The unshakable willingness of Oscar, a former farmer, to provide formal education for his children has spread in such a way as to constitute virtuous sowing - which can be proven by the schooling and profession of the children (already mentioned) as well as grandchildren and great-grandson .

Agton and Elizabeth gave Oscar and Alaide four grandchildren. Agton Jr. is an English and Kumon teacher and shares with his wife, pedagogue Rosany, a franchise of this Japanese education organization. Anderson left the engineering course, at the Federal University of Campo Grande, and law at the Catholic University, to venture into Japan, and on his return to Brazil, with his wife Adriana, he became a merchant. Alyson, after spending more than ten years in Japan, came to Brazil, married pedagogue Ana Beatriz and returned to Japan. His wife became a teacher in that country — it should be noted, the only country in the world where the emperor only bows, in awe, to the teacher, such is the value attributed to those who provide education. And the last, Giuliano, left law school to pursue his life only as a military policeman.

Angeliqui and Delaor gave them three grandchildren. Sérgio Ricardo is a lawyer and married to lawyer Vanessa. Delaorzinho is an agronomist and married to the pedagogue Sabrina. Cynthia is a lawyer and married to lawyer Paulo. Aside from the exercise of the law office in Brazil, on a “distance” basis over the Internet, as they live in Orlando, Florida, Cynthia and Paulo created the “iFood Pantanal”, which, through online orders, delivers material from supermarkets in Mato Grosso do Sul in several American states). And the great-grandson Sérgio, son of Sérgio and Vanessa, is attending the Faculty of Law.

Edna and Gilvan gave them a grandson, Giovani, who is studying at the Faculty of History.

Aléssio and Isabel gave them three granddaughters, Alessandra, Cecília and Laura who, at 17, are in the process of completing high school. Previously, Oscar and Alaide won from Aléssio and his girlfriend Miriam, the granddaughter Maria Tatianne, now graduated in Administration.

The mention of the school and professional situation of Oscar and Alaide's heirs can be seen as naivety, presumption or exhibitionism — but for sure it isnt this. Considering a median family, the evolution mentioned would be inserted in normality and clarification would be absolutely unnecessary. However, in the present case, due to the couple's educational limitations who originated the clan, the obstacles were such that the result presented can be considered an extraordinary achievement. Therefore, it is an unbelievable duty of justice to record the recognition and gratitude to Oscar and Alaide, for having unveiled the horizon and faced, with willingness and pertinacity, the challenge of providing education for their children.

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Notes.

Agton Jr. started the undergraduate degree in Economics at United Catholic Colleges of Mato Grosso (FUCMT), which became the Catholic University Dom Bosco, at Campo Grande, Mato Grosso do Sul. 

Anderson started the undergraduate degree in Engineering at the Federal University of Mato Grosso do Sul and the undergraduate degree in Law at the United Catholic Colleges of Mato Grosso as well, at Campo Grande.

Giuliano started the undergraduate in Law degree at the Catholic University Dom Bosco, at Campo Grande.

Sergio started the undergraduate degree in law in a College of the west region of São Paulo state and finished the course in the United Catholic Colleges of Mato Grosso.

Delaorzinho graduated in Agronomy at a private college at Campo Grande and took a master's degree in Agribusiness in Australia as well.

Giovanni is studying History at a private college in Dourados-MS.

Tatianne took a undergraduate degree in Administration and Manegement at a private college of Manaus.

 

Upon retirement, Oscar and Alaide moved to Campo Grande to be close to their children, since Agton, Angeliqui, Aloizio and Edna, already adults, lived in the current state capital. Although he could be close by frequent and systematic communication, in the second half of his military life, Aléssio alternated between Rio de Janeiro, Brasília and Tehran, in Iran.

In this way, the couple's long lives, lived with intense work, unsurpassed responsibility and insurmountable dignity — in order to become fertile and magnificent examples for the heirs — came to an end. Oscar passed away in 1995 and Alaide left in 2005.

On the occasion of Oscar's birth, these memories are shared with brothers, brothers-in-law, nephews and other family members, as a simple and well-deserved tribute to those who lived in order to illuminate the paths traveled with truth, decency and faith.