segunda-feira, 12 de abril de 2021

Prova de Habilidades Específicas da Cecília

"O lavrador perspicaz conhece o caminho do arado".
Homenagem a Oscar Barbosa Souto
Antigo lavrador, garimpeiro, comerciante, tabelião e juiz de paz.

In Memoriam.
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[Clique sobre um título]
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Nossas filhas estão fazendo provas para o ingresso na universidade desde 2019, quando elas enfrentaram o desafio do PAS-1 — no âmbito do Programa de Avaliação Seriada (PAS), em que o estudante realiza uma prova ao final de cada ano do ensino médio, visando ao ingresso na Universidade de Brasília (UNB).

Lamentavelmente, com a pandemia do coronavírus, a prova do PAS-2 — que elas fariam no final do 2º. ano, em 2020 — foi adiada para junho de 2021 e ainda não há previsão para o PAS-3, a prova do 3º. ano. De qualquer sorte, para o ingresso no curso de Artes Cênicas da UNB, por intermédio do PAS, é necessário que o candidato, adicionalmente, se submeta a uma Prova de Habilidades Específicas (HE) formulada pelo Cebraspe, órgão com a atribuição de realizar a prova para a UNB. Então, um grande desafio enfrentado pela Cecília — que fez a opção pelo curso de Artes Cênicas — foi a realização dessa prova nesse início de mês de abril de 2021.

A prova de HE se compõe de uma prova prática, constituída da gravação de um vídeo de cena de peça teatral com a duração de 3 min e 30 seg; e de uma prova escrita — uma redação com até 600 palavras (cerca 2,5 páginas A4, com caracteres médios), cujo tema está relacionado com a cena da peça teatral escolhida. 

Cecília escolheu gravar uma cena da peça “O Melhor da Idade”, de Lucélia Freire. O vídeo foi gravado com grande esforço e tudo indica que ela atingiu as metas estabelecidas no edital expedido pelo Cebraspe/UNB. A realização da prova escrita foi de tal monta desafiador que vale a pena registrar em detalhes o processo enriquecedor para a obtenção do resultado requerido.

Inicialmente, com o apoio deste pai coruja, a Cecília fez a análise dos requisitos expressos no edital. Desse trabalho conjunto, surgiu um esquema provisório dos assuntos a serem desenvolvidos e cuja síntese compreende:

- introdução;

- relações identificadas entre “Hamlet” e o contexto contemporâneo;

- motivações, escolhas e desafios no bojo de “O Melhor da Idade”;

- perspectivas profissionais, motivação estética e contato com a linguagem teatral; e

- conclusão.

Em uma fase subsequente, a Cecília buscou a orientação da Dra. Silvana, com quem ela tem interagido nos últimos dois anos. Essa psicopedagoga transmitiu uma orientação magnífica. Em um período de aproximadamente 50 minutos, ela sugeriu que a Cecília simulasse um “brainstorming” consigo própria e levantasse tudo o que lhe viesse à cabeça, relacionado com os itens constantes do esquema provisório, bem como levando em conta sua experiência nos cursos de teatro e na própria gravação da prova prática (que já tinha ocorrido no dia anterior). A Cecília levantou-se no dia seguinte e fez o “brainstorming” sugerido pela Dra. Silvana. O resultado desse processo encontra-se no Anexo Alfa.

Em nosso debate após o “brainstorming”, transmiti para ela que seu trabalho preparatório estava excelente; e que ela tinha dado um relevante passo para a prova de HE. Ademais, sugeri os seguintes aspectos adicionais, para ela considerar no bojo do que já tinha levantado, relativos à importância do teatro:

- oferta de entretenimento;

- possibilidade de melhoria do mundo pelos exemplos contidos nos dramas, tragédias, derrotas e vitórias dos personagens;

- oportunidade de trajetória associada com a plenitude de realização pessoal e profissional pela pessoa que escolhe artes cênicas;

- estímulo à evolução e à transformação da sociedade, de acordo com o ensinamento do filósofo grego Heráclito que cunhou a expressão “só a mudança é permanente!”.

Finalmente, no domingo, Cecília trouxe-me a primeira versão da redação da prova de HE. Disse-lhe que só leria o texto após o jogo entre Flamengo e Palmeiras, que estava em andamento no Estádio Mané Garrincha, nesta Brasília, capital da esperança dos cidadãos brasileiros e fonte da corrupção dos políticos que não deveriam ser considerados brasileiros.

A leitura da redação me alegrou porque o esforço da Cecília foi transformado em um texto bem concatenado, com 618 palavras, e já satisfazendo à maioria das disposições do edital do Cebraspe/UNB. Em minha visão, ela atingiu o resultado requerido. Como ela queria minha opinião e sugestões, não hesitei em fazer pequenas correções para melhorar o que ela queria transmitir, e estruturar umas poucas sequências de asserções para aumentar a clareza. Na introdução, no sexto parágrafo, apresentei sugestões para correção, visto que houve equívoco na interpretação do pedido. Na conclusão, apresentei uma sugestão diferenciadora, no sentido de que é preciso apresentar inferências relativas ao que foi tratado no desenvolvimento, bem como a inferência básica atinente ao impacto de artes cênicas nas transformações do mundo. Ela precisa ser inequívoca, forte e contundente, quando nada pelo descaso das autoridades públicas na relevância da educação, da cultura e das artes na evolução da sociedade.

No Anexo Beta, é transcrita a primeira versão do texto elaborado pela Cecília. Deve ser enfatizado que foi uma magnífica vitória, a produção de uma primeira versão de bom nível. No Anexo Gama, são apresentadas as sugestões com as oportunidades de aperfeiçoamentos e melhorias que, salvo melhor juízo, garantirão o êxito na difícil empreitada.

Então, a seguir, com a contrariedade da Cecília — mas com minha satisfação pelo excelente trabalho que ela empreendeu —, transcrevo neste blog sua redação revisada, no âmbito de todo o processo de desencadeamento da solução para a prova escrita. Não importa se a meta de ingressar na universidade vai ser concretizada agora. O processo de realização da Prova de Habilidades Específicas foi marcante, enriquecedor e trouxe consequências duradouras para o processo educacional de minha querida filha.

 

 


 

11/4/2021

Nome: Cecília Rocha Ribeiro Souto

Nº de inscrição: 10.000.118

 

 

Prova escrita de Habilidades Específicas

 

Nesta redação, são apresentadas as possíveis relações entre o texto teatral “Hamlet”, de William Shakespeare, e o contexto contemporâneo; aspectos essenciais da peça “O Melhor da Idade”, de Lucélia Freire; motivações, escolhas e desafios do processo de criação na prova prática; e perspectivas profissionais, motivações estéticas e contato com a linguagem teatral.

A peça teatral “Hamlet” apresenta a história do príncipe Hamlet, que vinga a morte de seu pai, que fora executado pelo próprio irmão Cláudio. Este o envenena e, em seguida, assume o trono da Dinamarca.

No desenvolvimento da tragédia, são encontradas semelhanças com o contexto político e social contemporâneo, porquanto nas interações do principado dinamarquês ocorriam disputas familiares e políticas, alicerçadas na mentira, na traição e na corrupção, presentes nos séculos subsequentes à tragédia de Hamlet — até os tempos atuais — em muitos países do mundo. Pode-se, pois, asseverar que a peça teatral “Hamlet” é um prenúncio das dificuldades que as sociedades contemporâneas têm enfrentado, na busca das metas primaciais do ser humano [evolução familiar e profissional; e busca de paz e harmonia, possibilitados pela democracia, sob a égide de liberdade, verdade, coragem e ética].

A minha escolha para realizar a prova prática, com a gravação em vídeo de uma cena da obra foi a peça teatral “O Melhor da Idade”, de Lucélia Freire.

Essa peça teatral versa sobre as interações entre pessoas, objetivando apresentar uma metáfora da vida humana, com ênfase para a velhice e para as questões de ausência, de abandono, de saudade e até mesmo de tragédias que levam à morte, com as respectivas perdas e sofrimentos.

A motivação para realizar uma cena da peça “O Melhor da Idade” está relacionada com a crise da atual conjuntura, resultante da pandemia do coronavírus. Muitos familiares e amigos de centenas de milhares de cidadãos faleceram vítimas de moléstia do Covid-19 e as consequências são dramáticas.

A escolha se mostrou apropriada pois os dramas encontrados na obra de Lucélia Freire estão presentes nas tragédias humanas da pandemia — pessoas morrem e não podem sequer ser veladas e despedidas. Portanto, os ensinamentos da obra “O Melhor da Idade” se prestam ao debate e à reflexão sobre a atual conjuntura. 

Os desafios enfrentados para a realização da cena escolhida foram: não ter passado pela situação que a personagem enfrentou (a perda de um parente próximo); fazer a gravação em casa com recursos amadores e com a improvisação de meios; superar os barulhos inevitáveis, existentes onde resido; e declamar o monólogo de forma adequada.

As perspectivas profissionais são: após a conclusão da faculdade, iniciar a carreira profissional na atividade de teatro; se possível, mudar para São Paulo e trabalhar em companhia de teatro; em qualquer circunstância, buscar a realização pessoal e profissional.

As minhas motivações estéticas estão amparadas em minha família. Recebi estímulos de meus pais e avó. Meu pai me apoiou nas matrículas em cursos de teatro; e em Londres, ele me levou a uma peça teatral-musical no Her Majesty Theater. Minha avó foi professora de artes e me incentivou em longas conversas sobre temas correlatos.

Meu contato com a arte aconteceu de forma gradual. Sempre tive a curiosidade de saber como eram os bastidores de filmes e peças de teatro; e eu buscava saber como o ator incorporava o personagem. Ademais, foram importantes os estímulos familiares, a participação em cursos e a ida ao teatro para assistir a peças.

Como conclusão, [destaco os aspectos mais relevantes tratados nesta redação. A peça teatral “Hamlet” é um prenúncio das dificuldades que as sociedades têm enfrentado nos últimos séculos; sendo, pois, inequívoca a relação da peça com o contexto contemporâneo. A cena que escolhi para gravar na prova prática, e sobre a qual discorro, contém os dramas humanos, especialmente, a inevitável morte e, nesse sentido, se constitui em uma metáfora da trágica conjuntura resultante da pandemia do coronavírus. Minha decisão de tentar abraçar a carreira teatral é motivada por perspectivas profissionais que me tragam realização plena e me permitam contribuir para um mundo melhor.] Por último e igualmente relevante, é inquestionável que a condição humana impõe a evolução. De acordo com o filósofo grego Heráclito, “só a mudança é permanente”. Então, é razoável asseverar que as artes cênicas podem contribuir para as mudanças requeridas pelo ser humano, de tal sorte que cada geração empreenda a eterna busca por paz e harmonia, com fundamento na liberdade, na verdade, na coragem e na ética.

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Nota esclarecedora. As expressões não itálicas, grafadas entre colchetes, constituem aperfeiçoamentos acrescentados a posteriori; e não constam da versão encaminhada para o Cebraspe (sobretudo porque esta precisava estar limitada a 600 palavras).

 

 

Anexo Alfa. “Brainstorming” preparatório da prova de HE do PAS-2.

Ideias para a elaboração da redação

- introdução 

-> contexto da peça teatral “Hamlet”

-> ano de estreia, autor, exemplos de pessoas que a interpretaram; 

-> um pequeno resumo;

- parágrafos 2 e 3 — relações identificadas

-> morte do pai de Hamlet; 

-> morte do personagem de “O Melhor da Idade”

-> carga dramática;

-> nostalgia; 

-> tempo passado com o pai e avó;

- parágrafos 4, 5 e 6 — a peça teatral e a cena escolhidas

-> motivação – o tema é importante – tratar de perdas;

-> escolhas – significado;

-> saudade;

-> minha primeira peça de teatro – autora, local, resumo;

-> primeiro certificado de teatro;

-> desafios – interpretar uma situação ainda não vivenciada;

– gravação em casa;

– amadorismo e improvisação de meios;

– iluminação não profissional

-> escolha da música de fundo;

-> significado do figurino;

-> um buquê de flores;

- parágrafos 7, 8 e 9 — perspectivas profissionais, motivação estética

-> concluir a faculdade;

-> tentar carreira em São Paulo;

-> local para morar;

-> estabilidade financeira;

-> apoio dos pais no primeiro curso de teatro;

-> apoio da avó (paciente professora de artes);

-> meta dos atores profissionais: transmitir mensagens através da peça de teatro;

-> ser quem eu quiser na interpretação de um personagem — velha, nova, bruxa, animal, seres que não existem na vida real;

-> contato com a linguagem teatral;

-> memorização de falas de filmes e tentar fazer igual (quando era criança);

-> curiosidade em saber como era a preparação de um ator até chegar ao palco;

-> funcionamento do teatro (iluminação, som, ...)

-> sempre ficava atenta quando assistia a alguma peça de teatro ou filme;

-> pesquisa de bastidores em vídeos do youtube.

- conclusão 

-> acreditar no processo;

-> o que me ajudou a melhorar as técnicas de atuação;

-> citar a frase de algum ator ou dramaturgo antigo ou atual.

 

 


Anexo Beta. Prova escrita de Habilidades Específicas (Versão inicial).

11/4/2021

Nome: Cecília Rocha Ribeiro Souto

Nº de inscrição: 10.000.118

 

Nesta redação, serão apresentadas duas peças teatrais, a primeira será Hamlet, de William Shakespeare. A segunda será o processo criativo de realização de uma cena da peça O Melhor da Idade, texto escrito por Lucélia Freire.

A peça teatral Hamlet foi escrita por William Shakespeare no ano de 1603. Ela já foi apresentada em mais de 60 países, já foi interpretada por Mel Gibson, Glen Close e Alan Bates. Um pequeno resumo da obra seria que ela reconta a história de como o príncipe Hamlet tenta vingar a morte de seu pai, o rei, executado por Cláudio, seu irmão, que o envenena e em seguida toma o trono para si.

Possíveis relações que podem ser encontradas na peça Hamlet e O Melhor da Idade é a morte do pai de Hamlet e na peça O Melhor da Idade é a morte da avó da personagem. Ambas têm uma carga bem dramática e trazem, de certa forma, um sentimento de nostalgia, pelos dois personagens lembrarem, em determinado momento, o tempo que passaram junto com seus respectivos parentes.

A motivação para fazer uma cena da peça O Melhor da Idade foi que o tema é importante de ser falado, visto que o momento atual, de uma pandemia, é necessária a enfatização ênfase desse tema. Muitas pessoas perderam seus familiares no contexto atual e ambas as peças retratam esse tema, mas também falam sobre superação, que foi a minha motivação para fazer tal cena.

A escolha da realização da cena se deu, pois, a peça O Melhor da Idade foi a primeira peça a ser interpretada por mim. A apresentação ocorreu no dia 2 de dezembro de 2018, no teatro Casa d’Itália, na sala Adolfo Celi. E foi a peça onde ganhei meu primeiro certificado de uma oficina de teatro.

Os desafios enfrentados para a realização da peça foram: eu nunca ter passado pela situação que a personagem enfrentou (perder um parente próximo). Outro exemplo seria a gravação da cena ter que ser feita em casa, os barulhos de não se estar em local apropriado também são um exemplo e o equipamento, como o tripé da câmara ter sido feito por caixas em cima de livros iluminados por lâmpada (abajur).

As perspectivas profissionais esperadas por mim são: após a conclusão da faculdade, ocorra a ida para São Paulo, onde possa ser feita uma carreira profissional trabalhando em alguma companhia de teatro.

As minhas motivações estéticas são a minha família. Em destaque meu pai pois foi ele que me matriculou em meu primeiro curso de teatro e desde lá, sempre vem me apoiando. E minha avó que desde o primeiro dia que contei a ela que queria ser atriz de teatro, ela sempre quer saber como vão as aulas e como pode me ajudar com o teatro; por ela ter sido professora de artes na faculdade Dulcina de Moraes, o contato dela com a arte é muito grande também.

Meu contato com a arte aconteceu de forma graduada gradual. Começou com a memoração memorização de falas de alguns filmes e a tentativa de reproduzi-las da mesma forma em que o ator fazia. Sempre tive a curiosidade em saber como eram os bastidores de um filme ou peça de teatro e sempre que dava tempo, eu ia até o Youtube e pesquisava como havia sido feita determinada cena ou como foi a preparação de determinado ator para interpretar um personagem.

Para concluir, gostaria de citar uma frase do filósofo Heráclito, “só a mudança é permanente”, que pode ser explicada da seguinte maneira: se você acredita no que está sendo feito (por exemplo, uma montagem de teatro), você tem a capacidade de fazer. E passar com clareza, a mensagem que você quer para o público e mudar a maneira das pessoas agirem e pensarem.

 



Anexo Gama. Oportunidades para aperfeiçoamentos e melhorias

 

1.    Alteração da introdução para que a apresentação da prova escrita esteja em consonância com a orientação do edital, que no item 3.4.1.2, aponta com clareza, os objetivos da redação.

2.    Adoção de aspas nos títulos das obras teatrais, isto é: “Hamlet” e “O Melhor da Idade”.

3.    Alteração do terceiro parágrafo, tendo em vista que a orientação do edital determina que o candidato deve discorrer sobre as relações identificadas entre o texto teatral “Hamlet” e o contexto contemporâneo. Nessa primeira versão da redação, houve engano, pois, foram identificadas as relações entre “Hamlet” e “O Melhor da Idade”.

4.     Alteração do sexto parágrafo para formular uma estruturação mais adequada para o conjunto dos desafios. Exemplo (em uma situação distinta) — “Ao final do ensino médio, os jovens enfrentam muitos desafios, dentre os quais podem ser citados: a decisão sobre a carreira a seguir; a preparação para o ingresso na universidade; a necessidade de uma vida contida, por ainda não dispor de recursos financeiros para satisfazer suas necessidades; e a expectativa de que a carreira profissional atenda a seus objetivos funcionais e financeiros.”

5.    Alteração similar do sétimo parágrafo, com o objetivo de relatar de forma mais estruturada, as perspectivas profissionais.

6.    Alteração do oitavo parágrafo, para uma melhor estruturação das motivações estéticas.

7.    Incluir na conclusão, uma síntese das inferências relativas aos assuntos que foram tratados nos parágrafos de desenvolvimento e tornar mais convincente e contundente o impacto das artes cênicas e do teatro na evolução da sociedade.

 

  

domingo, 21 de março de 2021

Monólogo "não raro"


Não raro, utilizo a expressão “não raro” com a acepção “com alguma frequência” ou simplesmente “com frequência” — sempre em oposição ao adjetivo “raro”. Eis alguns exemplos:

     Não raro, o artista é aplaudido ao entrar em cena. Não raro, ele reage com respeitosa reverência.

     Não raro, é preciso ter atenção e cuidado com as idiossincrasias da língua portuguesa. Não raro, elas surpreendem experimentados professores. Não raro, elas causam tropeço em brilhantes alunos.

     Quando qualquer dificuldade me envolver, não raro devo me lembrar que posso enfrentar situações piores e jamais deixaria de tentar superá-las. 

 

Estariam corretas essas “alessianas” rochedenses?

 

Compulsando-se o dicionário de Aurélio Buarque de Holanda Ferreira, constata-se que dúvida não há, elas estão corretas. O mestre dos doutores ensina: 

Não raro. Com frequência: [...]”.

 

Consultando-se também o Dicionário de Português licenciado para Oxford University Press, confirma-se o acerto do uso da expressão: 

Não raro. Com frequência; comumente, frequentemente <lia muito, não raro pela madrugada adentro>.

 

O socorro pode se estender ainda ao Dicionário Aulete Digital, de Francisco J. Caldas Aulete, que registra: 

Não raro. Com alguma frequência.”

 

Cidadãos há que consideram o emprego de “não raro” inadequado. Porém, o ex-presidente da Associação Brasileira de Imprensa é um dos autores que não concordam com essa asserção. Em seu livro Presença de Alberto Torres (página 63), encontramos: 

“Sua presença é constante no jornal, não raro apenas com

  suas iniciais.”

 

É interessante e curioso, verificar como essa expressão é traduzida para o idioma inglês.

Fonte: https://www.linguee.com.br/portugues-ingles/traducao/não+raro.html

(Consulta em 20/03/2021)

 

 


Fonte: Rede 'Brasil Notícias' – WhatsApp

sexta-feira, 19 de março de 2021

Apologia de uma amizade

"O lavrador perspicaz conhece o caminho do arado."
Homenagem a Oscar Barboza Souto, antigo lavrador, garimpeiro e comerciante.
In Memorian.

O amigo Saint-Clair enviou-me uma interpretação magnífica da música Bolero, de Ravel, regido pelo maestro romeno Sergiu Celebidache. Saint-Clair alertou que Celibidache disputou, no século XX, o título de maior regente do mundo com o austríaco Herbert Von Karajan.

Ao ouvir atentamente essa música, lembrei-me que, na década de 1970, quando servia na Brigada Paraquedista, comprei um disco vinil que, afora extratos de música do Beethoven e do Albinoni, tinha o Bolero de Ravel. Então, nessa época, tomei conhecimento de algumas das melhores músicas já compostas; e meu horizonte de cultura musical evoluiu da apreciada música sertaneja, que predominava na região onde nasci, para um nível inequivocamente diferenciado.

A regência do genial Celibidache é magnífica. A elegância como ele anuncia os instrumentos é algo que mexe com qualquer sensibilidade. Assim, vamos nos inebriando com cada compasso, em que predominam sucessivamente a flauta, o flautim, o clarinete, o oboé, o fagote, o trompete, o sax tenor, o sax soprano, a trompa, o trombone; em seguida os sopros, as cordas, e o conjunto dos sopros e das cordas; e finalmente a orquestra quase inteira (provavelmente, essa sequência está incorreta e incompleta, mas isso não prejudica o relato sobre a consagrada música e sua soberba interpretação).

Possivelmente, Manoel Bandeira diria que a regência de Celibidache é poesia em estado puro, e melhor que a dele. E aí me lembrei que já estive, com Isabel, na planície de Pasárgada, magnificamente cantada por Bandeira no poema “Vou-me Embora para Pasárgada”. Admirei o singelo mausoléu do Ciro, o Grande, fundador da Pérsia, e a épica conclamação para que esse túmulo, construído naquela planície, no século V a. C., jamais fosse destruído. Em um fragmento de história, aprendi que Alexandre, depois de destruir Persépolis (até as ruínas que sobraram são fantásticas!), determinou a seus guerreiros que não tocassem naquele túmulo. Eles deixaram-no intacto, mas recolheram todas as imensas riquezas que abrigava. 

Se Ravel vivo estivesse, e assistisse à apresentação sob a batuta de Celibidache, diria: 

“Liderou uma apresentação de forma mais esplendorosa do que aquela que extraí de minha imaginação!”. 

Por seu turno, o notável Bandeira diria: 

“A beleza dessa interpretação me obriga a ir mesmo para Pasárgada!”. 

A ficção que o poeta imaginou em seu poema mais célebre precisaria tornar-se realidade. Só assim, Bandeira poderia apreciar algo melhor do que o Bolero regido por Celibidache.

Mas voltando ao Saint-Clair, sua erudição musical, iniciada aos cinco anos com orientação de seu avô, é admirável e proporciona momentos magníficos, como a sugestão dessa versão da obra-prima de Ravel. Resta o agradecimento ao estimado amigo da turma Marechal Mascarenhas de Morais; e aos prestimosos líderes da turma, que agem de forma arguta e pertinaz, e impedem que a distância separe os companheiros de juventude — cuja interação fraterna independe do afastamento de algumas décadas.

 

 

Mausoléu do Ciro

É imperioso recordar o texto deixado por Ciro, o Grande, em seu mausoléu, na planície de Pasárgada:

 “Oh, cidadão do mundo, seja você quem for, de onde quer que você vier — porque eu sei que você virá —, eu sou Ciro, que fundou o império dos persas. Não tenha aversão por mim e não profane esse mausoléu que abriga meu corpo.” (Segundo Heródoto).

 


“Alexandre veio e, 23 séculos depois, nós também viemos.”

Aléssio & Isabel, Pasárgada, Irã, 2 de julho de 2000.

 

 

Bolero de Ravel

Apresento agora a versão da música do Ravel, sugerida pelo Saint-Clair. Para assistir, queira clicar sobre o título em azul.


Bolero de Ravel - Regência de Sergiu Celibidache


 


Vou-me Embora pra Pasárgada

 Manoel Bandeira

Vou-me embora pra Pasárgada

Lá sou amigo do rei

Lá tenho a mulher que eu quero

Na cama que escolherei

 

Vou-me embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada

Aqui eu não sou feliz

Lá a existência é uma aventura

De tal modo inconsequente

Que Joana a Louca de Espanha

Rainha e falsa demente

Vem a ser contraparente

Da nora que nunca tive

 

E como farei ginástica

Andarei de bicicleta

Montarei em burro brabo

Subirei no pau-de-sebo

Tomarei banhos de mar!

E quando estiver cansado

Deito na beira do rio

Mando chamar a mãe-d’água

Pra me contar as histórias

Que no tempo de eu menino

Rosa vinha me contar

Vou-me embora pra Pasárgada

 

Em Pasárgada tem tudo

É outra civilização

Tem um processo seguro

De impedir a concepção

Tem telefone automático

Tem alcaloide à vontade

Tem prostitutas bonitas

Para a gente namorar

 

E quando eu estiver mais triste

Mas triste de não ter jeito

Quando de noite me der

Vontade de me matar

— Lá sou amigo do rei —

Terei a mulher que eu quero

Na cama que escolherei

Vou-me embora pra Pasárgada.

 

domingo, 14 de março de 2021

Mensagem para Maria Helena

Cara M. H.,


Ainda sobre o Dr. Lindolpho. Primeiramente vou caracterizar nosso maltratado país.

Temos a classe política mais corrupta do mundo. Basta dizer que cerca da metade dos deputados e senadores estão sendo acusados ou processados por desmandos com recursos públicos.

Temos a pior Suprema Corte dentre os países democráticos desenvolvidos. Não raro, eles conspurcam a verdade romana “Omnis potestas ab jure” ("Todo poder deriva do direito"). Como advogado diletante e escritor vocacionado, o Cláudio Luiz, seu esposo, talvez discorde.

Como, de 1500 a 2021, os governantes jamais deram prioridade para a Educação, temos uma das piores repartições de renda dos países mais organizados e uma das maiores desigualdades sociais do mundo; acrescido de uma produtividade corporativa menor do que os 100 maiores países.

Porém, porém, porém, estamos entre os 14 países mais avançados em matemática. E isso se deve exclusivamente ao IMPA (Instituto de Matemática Pura e Aplicada).

Posso asseverar que essa proeza se deve também, de forma inequívoca, ao Dr. Lindolpho Carvalho Dias. Claro, em face sobretudo de suas três gestões não consecutivas, à frente daquele consagrado Instituto. 

Ele merece o reconhecimento e a glória! 

E à família resta o orgulho de contar com tão notável integrante! 

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sábado, 13 de março de 2021

Mensagem para o Cappellano

Meu amigo, é possível conversar, debater o que você propõe — vale dizer, as expectativas não alcançadas pelo governo federal. Porém, é preciso uma abordagem. Vou tentar apresentá-la por meio de exemplo. 

Tenho admiração por dois personagens.

O primeiro é o Dr. Lindolpho Carvalho Dias, com opção pela direita plena (direita mesmo!), fazendeiro, cultivador de soja em Goiás e café em Minas Gerais; matemático de projeção mundial, ex-diretor do IMPA, em três mandatos não consecutivos (cerca de 20 anos) e que contribuiu para que o Brasil seja um dos 14 países mais avançados do mundo em matemática. Tem 91 anos e ainda trabalha na FGV.

O outro, Saturnino Braga, esquerdista, comunista, socialista e petista; ex-senador e presidente da Comissão de Relações Exteriores e Defesa do Senado e ex-prefeito do Rio de Janeiro; já falecido.

Conheci pessoalmente os dois. O Dr. Lindolpho por razões familiares. O Saturnino porque o recebi no CTEx, com todas as honras, quando era presidente da citada Comissão; e porque o encontrei na casa do Dr. Lindolpho.

Eles foram colegas na Universidade e foram amigos fraternos durante cerca de 75 anos. Agora veja que um jamais ofendera o outro ou as opções pessoais e institucionais do outro. Eram intelectuais no sentido mais satisfatório, adequado e amplo da palavra.

Por último, eu me insurjo contra pessoas que se dizem intelectuais e agridem, ofendem e maculam os outros ou suas opções. Isso vale para gente de qualquer direção.

Desculpe por me estender em demasia. 

Forte abraço.

RS

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quarta-feira, 6 de janeiro de 2021

Rochedo maravilhoso

O portal “Diário Digital”, de Campo Grande-MS, divulgou, em 2020, o artigo “Mídia Ciência relata a história da extração de diamantes em Rochedo”, com curiosidades sobre a evolução da simpática cidade oriundas das rochas que abrigavam o valioso produto de carbono. 

 

Um parágrafo síntese caracteriza bem a matéria: “Distante a apenas 82 km de Campo Grande, capital do Estado, Rochedo foi durante a década de 30, um expoente da extração de diamantes na região Centro-Oeste. O nome, inclusive, é em homenagem as rochas localizadas na margem esquerda do Rio Aquidauana, onde os primeiros acampamentos de migrantes vindos do Nordeste se fixaram para iniciar o trabalho.”

 

Acrescentei ao artigo online dois comentários atinentes a filhos de Rochedo.

 

Um testemunho. 

Um dos garimpeiros [do final da década de 1930 e] da década de 1940 se chamava Oscar Barboza Souto. Depois de constituir família, ele deixou o garimpo, passou a lavrar a terra numa extremidade da fazenda do sogro e, quando os filhos começaram a crescer, ele mudou-se para a ‘cidade’ de Rochedo e tornou-se comerciante. 

Seus 5 filhos cresceram e se tornaram sucessivamente oficial do Exército e engenheiro (chegando a general, provavelmente o primeiro de Rochedo); advogado e delegado de polícia; pedagoga e supervisora educacional de Campo Grande; gerente de vendas veiculares; e escriturária e contabilista. 

Viva Rochedo, uma cidade maravilhosa!

 

Ao engenheiro João Teixeira o agradecimento pelo envio dessa magnífica matéria sobre Rochedo. Enfatizo que o amigo João é rochedense e filho de um pioneiro de Rochedo — o respeitado Raimundo Teixeira Gomes. 

São irmãos do João: o Valdir, um dos melhores jogadores de futebol de Mato Grosso na década de 1960; o Valmir, coronel do Exército e engenheiro; a Helena, coletora estadual de rendas de Rochedo; a Edir, excepcional vó e mãe de família. Que a família me perdoe se a memória falhou e esqueci alguém. 

Viva a família Teixeira! Viva Rochedo, uma cidade maravilhosa!

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sexta-feira, 4 de dezembro de 2020

Os sonhos que sonhei

"O lavrador perspicaz conhece o caminho do arado".
Homenagem a Oscar Barboza Soluto, antigo lavrador.
In Memoriam.

Com grande alegria, recuperei o que escrevera 51 anos atrás, por ocasião da saída da Escola Preparatória de Cadetes do Ar (EPCAr) e ingresso na Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN). 

São apenas dois parágrafos. O primeiro foi escrito alguns momentos antes de tentar conseguir carona para ir de Barbacena, onde fica a EPCAr, para Resende, onde se localiza a AMAN. O segundo foi escrito na primeira noite passada em Resende, no momento em que cruzei a ponte do rio Paraíba, que separa a AMAN da cidade de Resende.

Esses parágrafos expressam os sentimentos de perda, ao não lograr sucesso na ida para a Academia da Força Aérea por ter sido reprovado no exame oftalmológico, dado que contraí miopia ao longo do ensino médio; bem como, de forma não explícita, a expectativa de uma nova oportunidade de busca da trajetória das sendas de minha vida.

Os sonhos que sonhei.

[1]

Foi uma ilusão doce, profunda, meteórica mas como tudo que se relaciona com o amor deixa às vezes um sabor amargo.

Estou partindo! Deixando tudo prá trás como se nada houvera acontecido.

Novos sonhos, novas ilusões hão de ocorrer. Sonhar é preciso!

Barbacena, fevereiro de 1968

 

[2] 

Do alto desta ponte sobre o Paraíba ao som da música distante vislumbro a água carregando os sonhos idos, fugazes e trazendo a promessa, vã promessa de outros. Não estou satisfeito, mas nada posso fazer. Quisera ter alguém comigo prá dividir estas emoções, esta saudade, esta solidão.

Lá mais na frente, quando tudo for apenas uma lembrança fluida, quero reviver estes momentos e sonhar com os sonhos que sonhei.

Resende, fevereiro de 1968.

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