quarta-feira, 18 de março de 2015

Velha senhora

[Mensagem acolhida e divulgada no Fórum de Leitores eletrônico do Estadão de 18/03/2015]

Conforme essa tribuna da liberdade noticiou, a senhora Dilma Roussef afirmou que a corrupção é uma velha senhora. Ela sabe do que está falando. Como presidente do Conselho da Petrobras  e aprovar a compra da refinaria de Pasadena, e ao ser investida na condição de presidente da República e conviver com o Petrolão, ela já tinha mais de 60 anos. Gostaria de asseverar com ênfase que, ingressando na terceira idade, quero ser poupada do conspurcado “faça o que eu digo e não faça o que eu faço”. 

[Colaboração: Isabel KSRS]

Cidadãos, políticos e intelectuais

A leitura da matéria 12 olhares sobre os protestos do dia 15 (Estadão, de 17/3/2015) — na qual cientistas e outros intelectuais opinam sobre o impacto das manifestações ocorridas no dia 15 de março de 2015 — estimula a reflexão e a percepção de que, para ir de mal a pior, o Brasil precisa melhorar muito.
O conjunto de cidadãos, políticos e intelectuais tupiniquins oferece uma desalentadora perspectiva de evolução social, institucional e política.
No atinente aos cidadãos, não há melhor análise do que aquela formulada por João Ubaldo Ribeiro na crônica Precisa-se de matéria prima para construir um País. É uma radiografia social antológica das mazelas que envolvem as atitudes e procedimentos do homem e mulher brasileiros. Poder-se-ia indicar a essência da avaliação do cronista com o diagnóstico de que a “brasilinidade autóctone começa a ser um empecilho às nossas possibilidades de desenvolvimento como Nação, ...”.
Com políticos que ignoram a ética em suas ações e constroem estruturas de mentira, corrupção e roubalheira de dimensões estratosféricas como as do Mensalão e do Petrolão, a esperança evanesce.
Com intelectuais que, em suas análises — entre as omissões injustificáveis — ignoram as contribuições dos estímulos sorvidos por líderes brasileiros na Alemanha nazista, na antiga União Soviética e em Cuba comunistas e na Venezuela ‘estupidista’ (neologismo para caracterizar a estupidez em estado puro), a esperança voa celeremente para bem longe.
Atenção! Misturei sistemas opostos pelas semelhanças que ambos encerram. Para os esquecidos, anestesiados, esclerosados ou de má fé, relembro: o sistema nazista torturou e matou mais de 600.000 menores de idade na Alemanha na década de 1940; e o comunismo torturou e matou mais de 700.000 menores de idade na Ucrânia nas décadas e 1930 e 1940 (em ambos os casos, 10% do total de cada país). E, por favor, esquecidos et al, os citados líderes tupiniquins não vão a Cuba oscular as barbas e os joelhos do líder comunista apenas porque gostam do aroma daquele ditador, mas porque se identificam com a visão e a forma de ação que o caracterizam.
Estou dramatizando para expressar algo de extrema simplicidade: cada cidadão brasileiro merece um conjunto de conterrâneos de melhor qualidade; merece políticos com melhor estatura ética; e merece intelectuais com melhor capacidade para gerar ideias, que possam ser orientadoras dos políticos e dos demais cidadãos.

Enfim, parodiando João Ubaldo Ribeiro, posso dizer que ao olhar para o espelho dou de cara com o cidadão mal comportado que ora responsabilizo, e o que é pior — desalentado, desacorçoado e inserido na desesperança, especialmente, porque tenho os políticos e intelectuais que mereço. Reagir é preciso!

segunda-feira, 2 de março de 2015

Cômico se não fosse trágico

[Mensagem acolhida e divulgada no Fórum de Leitores eletrônico do Estadão de 27/03/2015]
O excelente artigo “Aqui nas nossas barbas” (“Estadão”, 25/2, A6), da sra. Eliane Catanhêde, analisa as interações do governo brasileiro com a madura Venezuela, em célere marcha para um cenário degenerative, e por extensão constitui-se em emblemático estímulo para a reflexão sobre as andanças de nossa trajetória político-institucional.

Nesse sentido, aduziria que é oportuno visitar mestre Rui Barbosa, que afirmara em conferência na Associação Comercial do Rio de Janeiro, por ocasião de sua campanha presidencial: “Mentira toda ela. Mentira de tudo, em tudo e por tudo. Mentira na terra, no ar, até no céu, onde, segundo o padre Vieira (que não chegou a conhecer o sr. …….), o próprio sol mentia ao Maranhão, e direis hoje mente ao Brasil inteiro. Mentira nos protestos. Mentira nas promessas. Mentira nos programas. Mentira nos projetos. Mentira nos progressos. Mentira nas reformas. Mentira nas convicções. Mentira nas transmutações. Mentira nas soluções. Mentira nos homens, nos atos e nas coisas. Mentira no rosto na voz, na postura, no gesto, na palavra, na escrita. Mentira nos partidos, nas coligações e nos blocos (...) Mentira nas eleições. (...) Mentira nas candidaturas. (...) Mentira nas responsabilidades. Mentira nos desmentidos. A mentira geral. O monopólio da mentira”. Chega!

Sócrates, o grego da cicuta, perguntaria: “Mas, estaria o profeta baiano se referindo à compra da refinaria de Pasadena? Ou seria sobre a esticada da comitiva presidencial em Lisboa no retorno ao Brasil? Teria a desmontagem da candidatura da Marina alguma coisa que ver com isso? Não estaria falando o profeta sobre as notícias veiculadas pelo governo sobre a (des)pujança da economia brasileira? Seria sobre a indigência da educação pública no Brasil? Ou sobre a pobreza do apoio médico brasileiro, com questões estruturais que jamais seriam solucionadas com o programa Mais Médicos? Poderia ser sobre os investimentos brasileiros nas ditaduras americanas e africanas? Haveria de ser pelo apoio dos mensaleiros à reeleição do ano passado? Ou sobre o apoio dos petroleiros, esses que estão trancafiados por um magistrado do Estado do Paraná? Ou quem sabe sobre a propalada alegação de desconhecimento da agência Moody’s sobre a situação da Petrobrás? Será que a sra. Catanhêde poderia esclarecer? Profeta! Articulista! Eu só sei que nada sei; é isso que eu propugnava?”.

Aí apareceria Aristóteles asseverando, com mais um silogismo: “SE as indagações do sábio Sócrates sobre as assertivas do profeta Barbosa forem respondidas afirmativamente; e SE arquitetura da civilização ocidental desencadeada pelo sábio Platão estiver sendo propositalmente contrariada; ENTÃO a verdade, a liberdade, a decência e a justiça estão sendo conspurcadas no Brasil e, como corolário, as preocupações da sra. Catanhêde estão justificadas e o perigo tem endereço certo”.

Como seria divertido brincar com as reflexões dos moços de Atenas sobre a realidade brasileira! Como seria cômico, se não fosse trágico – tragédia expressa em crônicas antecipadas de insucessos garantidos, inequívocos, cristalinos. Mas os brasileiros relutam em ver – pelo menos, desde a conferência do estadista Rui Barbosa, na Associação Comercial do Rio de Janeiro, em 1919!

E a oposição? Bem a base aliada paradoxalmente tornou-se oposição de si própria, dificultando a atuação dos opositores. Não é incrível este país chamado Brasil? Quem sabe a sra. Catanhêde poderia apelar para o sr. Aécio. Ora, diante do cabelo inexcedivelmente bem talhado e do sorriso suave e enigmático da apelante – não cito a Mona Lisa porque ela não é tão bonita; que venha para cá um da Vinci! –, o mineiro poderia escorregar nas malhas dos encantos do apelo. E agir. Ação! Ação! Oposição! [Ação ainda que tardia ou antes que seja tarde demais; ou antes que se imponha a reação!].

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Virtude, honra e dignidade

Sócrates, Zamperini e Hawking

O que há de comum entre o grego Sócrates, o americano Louie Zamperini e o britânico Stephen Hawking — sendo o primeiro separado dos demais por mais de dois milênios? 

Sócrates
Ao ler um livro de 900 páginas, repousando na cama, cochilei e o livro caiu em meu queixo. O sono foi-se instantaneamente. Fui à livraria comprar os livros didáticos de minhas filhas e no fechamento do negócio, fui informado de que se completasse a compra com mais algumas dezenas de trocados, garantiria um bônus.  Então, escolhi alguns livros leves, pequenos e de baixo custo — afora exercer o direito à vantagem ofertada, poderia ler deitado e sem risco.
Um dos livros — levíssimo, com volume reduzido e custando R$ 9,00 — era A apologia de Sócrates, de Platão. Foi uma bela aquisição. Deu para conhecer pela própria boca de Sócrates (naturalmente, com formulação do autor, aluno daquele sábio grego, que transmitira para a posteridade a herança do mestre, que nada deixara registrado), o que já lera ou ouvira na forma de citações de outros autores: a coragem moral de Sócrates, a definição dos fundamentos da ética e um quase delineamento do que hoje é chamado habitualmente de estado democrático de Direito.
O livro versa fundamentalmente sobre o julgamento de Sócrates, ocorrido em 399 a. C., em Atenas, em face da acusação de impiedade e corrupção dos jovens. Ele é organizado em três partes: Êutifron, A apologia de Sócrates,  que nomeia a publicação,  e Críton.
Êutifon é um dos célebres diálogos, típicos da obra de Platão, onde Sócrates questiona o adivinho Êutifron — este também envolvido em processo de julgamento, dado que estava processando o próprio pai por homicídio de um assassino — desqualifica o interlocutor ao mostrar que ele não tinha o conhecimento que apregoava; apresenta evidências de que a busca do conhecimento requer a suposição de ignorância e dúvida, de tal sorte que num processo racional de indagações, surja a luz; e antecipa argumentos lógicos que utilizaria posteriormente em sua defesa.
A apologia de Sócrates traz três discursos do filósofo no bojo de seu julgamento pela acusação que lhe fora perpetrada. No primeiro, ele faz sua própria defesa perante o corpo de 500 jurados. Com a abordagem concernente à piedade — não para pedi-la, mas para conceituá-la — tem a mesma altivez, coragem e atitude desafiadora que, de certa forma, deram causa à acusação. Evidentemente, muitos dentre os jurados tiveram a sensibilidade atingida da mesma forma que os acusadores e, por essa razão, ele acabou condenado à pena capital por uma estreita margem de votos. No discurso seguinte, ele teve a possibilidade de propor uma pena alternativa, como permitia a processualística vigente, mas — de forma contrária e coerente;  e mercê da certeza de que praticara o bem — propôs a maior homenagem devida a um ateniense: alimentar-se gratuitamente, às custas da cidade. Como corolário, sua pena foi confirmada por uma maior margem de votos. No último discurso, com a abordagem centrada no significado da morte, ele se dirige aos que votaram pela condenação, para reafirmar que a pena será aplicada por ter ele agido em consonância com a prática do bem e, em tom desafiante, assevera: ... E eu partirei agora condenado — por vocês — à pena de morte, enquanto eles [os acusadores], condenados — pela verdade — à mesquinhez e à injustiça.”; e em seguida, numa sentença com a força dos gigantes, declara-se “... livre para morrer.”. Depois, se dirige aos que lhe foram favoráveis, para caracterizar a morte como um bem, seja como um fim total ou como a passagem para outro lugar. E encerra o último discurso, usando a imagem da possibilidade de condenação de seus próprios filhos, se necessário, desde que submetica à prevalência da justiça.
Críton é outro célebre diálogo, desta feita, ocorrido na véspera da execução da pena, por ocasião da visita de um amigo grado e poderoso. Ele lhe trazia a proposta de fuga. Sócrates agiganta-se para debater a arquitetura do dever e da justiça. Jamais renunciaria a suas convicções. A melhor interpretação desse diálogo é a conceituação da ética, condicionada às noções da verdade e da justiça.
O grande filósofo, utilizando sua incomum genialidade, opôs-se aos poderosos da época e foi acusado de ímpio e fomentador de desvios da juventude. Por essa razão, foi processado e condenado à morte. Seu discurso de defesa perante os julgadores foi uma peça política, permeada de conceitos atinentes à ética e à moral. Assim, como desafiava os poderosos com a pregação que gerou a acusação, desafiou o sistema jurídico grego, mostrando altivez, qualificação intelectual e enorme capacidade de formulação de ideias. Diante do veredito, poderia ter transformado a condenação capital em punição mais branda, propondo ele próprio pena alternativa — o processo penal daquele tempo permitia esse procedimento —, mas sua integridade o impediu agir nessa direção: antes, propôs que vivesse à custa do estado, o que era considerado um dos maiores prêmios da época. Na véspera de sua execução, um amigo poderoso visitou-lhe no cárcere e propôs que fugisse e se exilasse. Mais uma vez, em nome da legalidade, da correção e do respeito à estrutura institucional, recusou-se a aceitar a oferta. É o alvorecer da ética em estado puro.
Louie Zamperini
No retorno à frequência de cinema — um passatempo favorito desde os primórdios de minha vida —, comecei 2015 com o pé direito. Assisti ao filme Invencível, dirigido por Angelina Jolie, com roteiro dos irmãos Cohen e baseado livro de Laura Hillenbrand e estrelado por Jack O’Conell.
O filme retrata a vida de Zamperini, campeão olímpico e herói de guerra. Ele foi um infante e adolescente problemático: contrariava as orientações paternas, criava problemas em casa e na escola. Na rua, bebia, brigava e roubava. A partir de meados da  adolescência, por influência e generosidade do irmão mais velho, descobriu o atletismo. Ironia ou não, as corridas da polícia durante a rebeldia juvenil teriam estimulado o desabrochar de seu talento. Ele se tornou campeão olímpico na Olimpíada de 1936, para onde fora com o objetivo de ambientar-se, imaginando que sua chance só chegaria quatro anos mais tarde, na então planejada Olimpíada de Tóquio.
Com a eclosão da Segunda Guerra Mundial, Zamperini foi compelido a encerrar sua carreira esportiva, ingressou na Força Aérea dos Estados Unidos na condição de atirador do bombardeiro B25 e foi guerrear os japoneses do outro lado do mundo. Em uma missão de combate, sua aeronave foi abatida sobre o oceano Pacífico e três integrantes da tripulação se salvaram e ficaram à deriva durante 43 dias em botes de salvamento de borracha — Zamperini, um piloto e um navegador.
O alimento que carregavam se esgotou nos primeiros dias. Um albatroz descuidado pousou na borda do bote. Uma mão salvadora com agilidade felina prendeu a ave pelas pernas, assegurando uma suposta refeição que, em realidade, consumiu dois tipos de energia: a primeira para consumir o alimento cru e o outro para expeli-lo via oral, com o risco de alguma parte do sistema digestivo seguir junto. O insucesso foi transformado em êxito, já que o que restou era considerado nobre pelos peixes que rodeavam o bote. Então, a sobrevivência foi garantida pela pesca inovadora, com isca de albatroz, de peixe cru e pela coleta de água da chuva.
Um dos guerreiros não suportou o longo tempo passado nas precaríssimas condições de náufragos e pereceu. Seu lançamento ao mar foi um dos momentos dramáticos da trajetória dos dois heróis. Um observador externo não deixa de imaginar um hipotético cenário em que o suposto último sobrevivente ficaria sem alguém para acompanhá-lo no momento derradeiro. Em realidade, eles não precisaram chegar a essa situação extrema. Um deles foi acordado pelo outro com duas notícias: a primeira que estavam sendo resgatados; e a segunda que o resgate estava sendo realizado pelos inimigos japoneses.
Zamperini enfrentou o maior desafio de sua vida no campo de concentração em que fora aprisionado. Sua biografia atlética foi estímulo para que o comandante do cativeiro o submetesse a agressões físicas, psicológicas e morais terríveis. Essas agressões atingiram o nível hediondo após sua recusa em aceitar benesses (passaria a viver fora da prisão, com todo o conforto possível, e especialmente, com alimentação farta e de alta qualidade) em troca da transmissão de mensagens mentirosas para o povo americano. A perseguição cessou temporariamente, com a promoção e remoção do militar que comandava o campo. Eles voltaram a se encontrar em outro campo de concentração e o tratamento degradante teve continuidade e só cessou com o fim da guerra.
O herói americano demonstrou não apenas uma resistência fenomenal no período em que esteve à deriva no oceano Pacífico, bem como nos campos de concentração, mas retirou de suas entranhas uma enorme resiliência ética e moral, ao enfrentar as adversidades que a maldade humana inimiga o submetera no período em que passara nos campos de concentração.  Angelina Jolie dirigiu um belo filme e prestou uma magnífica homenagem a quem apostou na prevalência da decência e da ética, não importando quão adversa seja a circunstância.

Stephen Hawking
Em meu aniversário, ganhei o livro A teoria de tudo, de Jane Hawking. A brilhante ex-esposa do notável físico decidira oferecer a seus contemporâneos sua visão da convivência durante cerca de duas décadas com Stephen Hawking. O que mais impressionou no livro? Bem, Jane tomou conhecimento da doença logo após conhecer Stephen. O diagnóstico indicava que ele era portador de Esclerose Lateral Amenotrópica (ELA) e que teria mais dois anos de vida. Mesmo alertado pelo pai de Stephen, decidiu encarar o desafio, namorou e se casou com ele. O livro não é somente um relato da saga dele;  é também um impressionante relato das emoções e do calvário da esposa como infatigável companheira e amiga; babá e quase enfermeira do paciente, em tempo integral, durante quase todo o tempo em que estiveram juntos; mãe de três filhos — surpreendentemente, resultantes da parceria com Stephen; ativista de causas de interesse coletivo; aluna de doutorado, conquanto sua tese tenha sido elaborada a conta-gotas; e cantora lírica no período final da convivência.
Dentre as indagações estimuladas pelo livro, por essenciais, destacaria algumas. Que motivações tivera uma moça bonita, jovem e inteligente para embarcar numa trajetória afetiva tão incomum? E tendo embarcado, o que a levara a manter o curso, sem arredar da direção escolhida, até que ele, marido, decidira que romperia o matrimônio? Em relação a ele, como alguém que fora tomado de doença tão grave, agressiva e degeneradora pôde manter, ao longo do tempo, o foco, a concentração, a disposição e a inexcedível energia para tornar-se um dos maiores cientistas do século XX? E mais do que isso, como ele desafiou e ainda desafia a doença e mantém-se até hoje, com mais de 70 anos, em atividade intelectual, à despeito de não falar, não mexer senão a mão e as pálpebras?
Com enorme satisfação, assisti ao filme baseado no livro da senhora Jane Hawking. Foi dirigido por James Marsh e estrelado por Eddie Redmayne, no papel do cientista, e por Felicity Jones, no papel da esposa. Sobre o desempenho do ator pode-se afirmar que ele parece tão real, convincente e brilhante quanto o próprio Stephen Hawking. Com toda razão, com mérito de sobra, Redmayne foi laureado em 2015 com o Oscar de melhor ator.

Então, voltando à abertura deste texto, é inquestionável asseverar que Sócrates, Zamperini e Hawking são seres humanos de enorme coragem física e moral. Eles enfrentaram a adversidade com muita bravura. Eles se inserem no universo dos seres humanos invencíveis — enfatize-se, pois, o acerto da escolha do título do filme O Invencível, dirigido por Angelina Jolie para retratar a vida de Zamperini. O filósofo, o guerreiro e o cientista usaram a força e a fé — associadas com suas épicas existências — para transmitir um magnífico exemplo para seus contemporâneos e para os demais seres humanos de todos os tempos.

 

 

Podemos, pois, afirmar que Sócrates, Zamperini e Hawking fizeram o que, na Segunda Guerra Mundial, o capitão Charles Miller, na hora da morte, sugeriu ao soldado James Ryan: “faça por merecer”. 

É oportuno lembrar que a morte de Miller fora causada pelo esforço para levar Ryan de volta para suas famílias, já que seus três irmãos Ryan tinham perdido a vida, na mesma Segunda Guerra, na luta pela liberdade.

Nesse sentido, Sócrates, Zamperini e Hawking "fizeram por merecer" o ingresso na lembrança eterna, em face dos exemplos de virtude, honra e dignidade que deixaram para a posteridade.

 



quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Clostermann e Saint-Exupéry


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Antoine de Saint-Exupéry morreu em 1944, no Mediterrâneo, pilotando uma aeronave P-38, da Força Aérea Francesa Livre. Essa força foi organizada e liderada por De Gaulle, em 1940, no início da Segunda Guerra Mundial, em face da rendição dos franceses aos alemães. O governo tutelado pelos germânicos foi liderado pelo Marechal Pétain, em Vichy, o que lhe causou, ao final da guerra, a condenação à pena de morte por traição.

Pierre Clostermann [*] nasceu no Brasil,  fez pilotagem no Aeroclube do Rio de Janeiro aos 16 anos e se tornou, aos vinte e quatro anos, o maior herói daquela Força Aérea na Segunda Guerra Mundial.  No livro Le Grande Cirque 2000, faz uma severa crítica a Saint-Exupéry. A referência a Saint-Exupéry está na introdução do livro citado e, numa tradução livre e meio irresponsável, é a seguinte:


 “Em uma carta a André Gide, Saint-Exupéry dá uma triste e depreciativa definição de coragem: ‘Um pouco de raiva, um pouco de vaidade, um prazer esportivo vulgar ...’. Eu quero muito concordar com a raiva porque eu a conheço, mas a vaidade? Terá sido por vaidade que Saint-Exupéry tentou compartilhar nossa luta pilotando um P-38 com três anos de atraso e depois de, porta-voz inconsciente do Governo de Vichy, ter explicado aos Estados Unidos que a França deveria se redimir e a Roosevelt que De Gaulle seria um segundo Hitler! Prazer esportivo vulgar? Então prossigamos! Prazer esportivo vulgar, quando há na extrema trajetória do medo, a morte e a nobreza de um sacrifício livremente praticado? Prazer esportivo vulgar para os pilotos argentinos nas Malvinas, caindo a 600 nós no meio da frota inglesa? Prazer esportivo vulgar? O que significam essas palavras para os pilotos camicases japoneses de vinte anos que viviam sua noite de jardim das oliveiras sabendo que o sol que se pôs no horizonte iluminara seu último dia? Palavras da parte de um excepcional escritor, ou auto-justificação?  Que viva a eternidade em paz, ele pagou o preço devido.”


         Saint-Exupéry adquiriu fama mundial com seus livros, dentre os quais o mais célebre é O pequeno príncipe. Por outro lado, conquanto herói francês, Clostermann é pouco conhecido, mas a versão que apresenta em seu livro dá o que pensar.  Afinal, trata-se de escritor de 11 livros, empresário bem sucedido e deputado da Assembleia Nacional, tendo sido reeleito sete vezes.  
a          Por oportuno, é imperioso indagar se a produção intelectual — científica, artística, literária, como por exemplo a do Saint-Exupéry — está desgarrada da conduta ética? Vale a expressão: “odeio esse caboclo, mas adoro sua obra!”, como asseverara Godard, em referência ao apoio de John Wayne aos republicanos americanos e ao magistral desempenho do ator no filme Rastros de ódio?

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terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Dúvida não-socrática: irritar-se ou não?

[Matéria acolhida e divulgada no Fórum de Leitores eletrônico do Estadão de 12/02/2015]

         No atinente à matéria “Com ferro foi ferida”, da Sra. Dora Kramer (Estadão, 10/2/2015), uma sequência não-socrática de perguntas que não querem calar-se é oportuna.
Uma presidente da República tem o direito de ficar irritada? Se tem, é um atributo bom de uma estadista ficar irritada com frequência?
A presidente do Conselho de uma corporação tem o direito de afirmar que tomou decisão baseada em parecer incompleto e falho? E se tem, ela tem o direito de ficar irritada com ela própria ou com o assessor que a enganou?
Uma presidente da República tem o direito de tomar a maioria de suas decisões de forma errada? E se tem, ela tem o direito de ficar irritada com ela própria ou com aqueles que sofreram as consequências de suas decisões?
Uma presidente da República tem o direito de mentir? E se tem, não estaria certo seu mentor ao afirmar que estavam tentando impedi-la de concluir o mandato? E se seu mentor estava certo, é correto que se queira impedi-la de continuar? E se é correto, não é o caso de asseverar: “Viva o mentor! Ele falou a verdade; ele indicou o que precisa ser feito; o que é imperioso que se faça”?  E nesse caso, ela tem o direito de ficar irritada com ela própria, com seu mentor ou com a sociedade?
Uma presidente da República tem o direito de ser a líder — de ser a presidente — de apenas uma parcela da população liderada? E se tem, eu tenho o direito de considerá-la presidente apenas da parcela que lhe agrada e ignorá-la solenemente; e de tentar impedi-la nos ditames da lei? Aí, ela tem o direito de ficar irritada com ela própria ou com a sociedade?

Enfim, a despeito das perguntas serem não-socráticas, muitos Sócrates são necessários na selva tupiniquim. Não se construiria uma civilização ocidental-tupiniquim, mas pelo menos teríamos de volta o bom humor e a elegância. Nem precisaríamos da ética e da moral.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Otimismo incorrigível


Meus amigos civis desconhecem e se surpreendem quando lhes afirmo que minhas filhas não têm direito a ingressar no Colégio Militar de Brasília sem concurso.

Elas poderiam ter acesso sem concurso se, após a transferência para a reserva, eu me mudasse para uma cidade com Colégio Militar. O pressuposto é que essa última transferência, de responsabilidade da Instituição, ainda poderia prejudicar filho de militar atingido.

Os colégios militares têm algumas vantagens sobre as escolas de nível similar: a possibilidade de o aluno participar de práticas esportiva, musical, cultural, artística, entre outras; a absoluta impossibilidade de paralisação por greve; o rigoroso cumprimento do planejamento anual; e uma carga horária, em geral, superior ao previsto pelo MEC --- os insuficientes 200 dias/aula/ano, adotados em 1995, ainda resultado da gestão do Dr. Paulo Renato, ex-reitor da Unicamp, naquele Ministério.

Naturalmente, a escola dos sonhos deve ter, no mínimo, 6 horas diárias de aula; 240 dias/aula/ano; e professores  bem pagos, qualificados, motivados e, especialmente, pertencentes aos 10% dentre os mais talentosos profissionais de cada geração. O PISA [1é um programa de avaliação educacional dos países membros e associados da OECD [2]. Nos últimos 10 anos, a Finlândia tem os melhores resultados nesse programa porque dispõe de um sistema com as características mencionadas.

Ou o Brasil adota um processo com essas características ou passa à decadência antes de atingir o ápice. Como sou otimista, acho que vai acontecer: o Brasil chegará ao ápice. Só não se sabe com qual liderança nem quando!
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[1] PISA - Programme for International Student Assessment (Programa Internacional de Avaliação de Alunos).
[2] OECD - Organisation for Economic Cooperation and Development (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico). Abrange 34 países da União Européia (membros) e 31 outros países, dentre os quais o Brasil (associados).