domingo, 24 de março de 2019

Mensagem para o Saint Clair

Caro amigo Saint Clair,
Vou contar uma pequena estória. Acho que vai gostar.
Como você sabe morei no Irã, na condição de Adido de Defesa.
Um de meus antecessores tinha conta bancária em Teerã, a capital. Aí, o governo islâmico bloqueou as contas bancárias de todo mundo, inclusive dos diplomatas e militares estrangeiros. Durante 6 meses, não foi possível ter acesso à grana já depositada.
Então, o titular da Aditância decidiu abrir conta em um banco de Dubai. O vencimento e os recursos do escritório eram depositados pelo Exército na agência do Banco do Brasil de Nova Iorque e, em seguida, transferido para um banco árabe dos Emirados Árabes Unidos. Eu encontrei essa situação por ocasião da épica passagem pelo Oriente Médio.
Em julho, a temperatura em Dubai chegava a 55º C. Nesse mês, havia autorização para receber o pagamento na Europa. Em 1999, decidi fazê-lo em Genebra, pois queria conhecer a Suíça.
Cheguei lá, por volta de 17:00 h. Ao dar entrada no modesto hotel que reservei, perguntei à gerente, uma portuguesa jovem, se tinha algum programa cultural que ela recomendasse. Ela disse que a ópera Norma estava sendo apresentada no Grand Théâtre de Genève. Aí asseverei que deixaria as malas no apartamento e iria para o teatro. Ela riu, sem qualquer despiste para a ironia, e afirmou que eu teria que comprar o ingresso com cerca de 10 dias de antecedência. 
Disse-lhe que era do pantanal sul-mato-grossense, que assistiria ao programa e que ela fizesse a gentileza de pedir um táxi imediatamente. Ela deu uma gargalhada mas atendeu a meu pedido.
Cheguei ao teatro cerca de uma hora antes do início. Entrei numa fila longa para adquirir o ingresso. Comecei a conversar com três judeus que também queriam curtir aquele momento — um casal e uma moça, irmã do rapaz. Como a fila não andava, disse-lhes que iria ao guichê pedir informações. Lá chegando, vi uma aviso que os ingressos estavam esgotados — ou seja, estávamos na 'fila do bobo'. Voltei e convidei os três jovens para ficarmos na porta do teatro, pois quem sabe apareceria alguém vendendo ingresso.
Quando faltavam uns 15 minutos para o começo do programa, apareceu uma senhora oferecendo 4 ingressos porque a filha dela e o marido, que vinham de uma cidade francesa localizada próxima à fronteira suíça, não conseguiram chegar a tempo.
Bom, 5 minutos antes da ópera começar, estávamos confortavelmente sentados em uma boa posição para assistir a fenomenal obra do Bellini.
Essa é a estória! Como você é conhecedor e admirador, envio com satisfação o vídeo Casta Diva, com a Aida Garifullina. Afora o nome esquisito, não foi ela a que assisti em Genebra, mas é belíssima e magnífica intérprete. Você a merece.
Fraterno abraço.
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Grand Théâtre de Genève (1)

Grand Théâtre de Genève (2)

Grand Théâtre de Genève (3)
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PS.
A propósito, quando estava cursando o IME, o Elias, da turma de 1974, sempre me convidava para assistir a programas musicais. A Cecília, esposa dele, é uma pianista sensacional e se apresentava com frequência em boas casas.
 Na época, eu não gostava de ópera, e depois da segunda vez que fui com o casal ao Teatro Municipal, pedi a ele para não me convidar mais para ópera. Só iria, com satisfação, aos concertos. Menciono o fraterno casal amigo, por uma dramática circunstância: eles tinham duas filhas e, quando eu estava no CTEx, uma das meninas deles foi à praia Vermelha. Mergulhou, como fazia habitualmente e, por uma razão inexplicável, não conseguir sair. 
Com profunda tristeza, registro esse fato que afetou tanto a família e os amigos grados. É minha homenagem, atinente a quem tanto considero e admiro.