terça-feira, 31 de março de 2020

Homenagem aos bravos


Valho-me de reminiscências profissionais como motivação para recordar também o bom combate pela liberdade, destacando aqueles que caminharam até o limiar do sacrifício da própria vida — sendo que alguns o ultrapassaram — como condicionante de sobrevivência de uma Nação.
Em abril de 1997, foi concluída a construção de 164 casas no Setor Militar Urbano, à retaguarda do Batalhão da Guarda Presidencial (BGP), Batalhão de Polícia do Exército de Brasília (BPEB) e 32º Grupo de Artilharia de Campanha (32º GAC) — a rigor, 164 PNR (Próprios Nacionais Residenciais), destinados a capitães/tenentes e subtenentes/sargentos. 
A implantação das obras no terreno e a própria arquitetura das casas foram criteriosamente planejadas e projetadas pela talentosa equipe da Comissão Regional de Obras/11 (CRO/11). As casas destinadas para capitães e as destinadas para sargentos foram separadas por três quadras tradicionais contíguas com a finalidade de abrigar uma praça ladeada, de um lado, por instalações de comércio e, de outro, por espaço para escola. Próximo ao limite Oeste do conjunto, foram implantadas uma praça com coreto típico de cidade do interior, quadra poliesportiva e campo de futebol. Embora projetadas com a mesma planta baixa, havia quatro tipos distintos de fachada e de cobertura, distribuídas de forma aleatória, de tal sorte a causar a impressão de que não era uma vila militar tradicional, mas a parcela de um bairro típico de classe média. Então, o pequeno conjunto habitacional nasceu com a vocação residencial, esportiva, educacional, cultural e comercial.
Tudo indica que o então Ministro do Exército, General Zenildo Zoroastro de Lucena, aprovou plenamente a concepção adotada. Afora, empreender a inauguração em evento com magnitude não habitual, com a presença de integrantes do Alto Comando do Exército e grande representação de oficiais e sargentos de Brasília, bem como de convidados do Poder Legislativo e Judiciário, a autoridade maior do Exército determinou que, na cerimônia de inauguração, houvesse três homenagens.
O conjunto habitacional recebeu o nome de Gilberto Freyre, pernambucano como o próprio Ministro, e um dos maiores escritores brasileiros. A quadra poliesportiva recebeu o nome da poetisa Cora Coralina, uma feliz referência a ela própria e ao Centro Oeste do Brasil. A região comercial e educacional recebeu o nome de Rubem Braga, o mais distinguido autor da história da FEB da Segunda Guerra Mundial.
A obra foi iniciada no primeiro semestre de minha Chefia na CRO/11 e a inauguração ocorreu três meses após minha saída da Chefia da Comissão. Ainda assim, compareci ao evento e, isolado em meio à pequena multidão presente, refleti muito sobre o trabalho coletivo e sobre a motivação daqueles que trabalharam com pertinácia para a concretização desse objetivo estabelecido pelos escalões superiores.
Essas reminiscências me vieram à mente porque nesses tempos da pandemia do coronavírus, recebi uma encomenda de livros e, entre eles, está “Crônicas da Guerra na Itália”, de Rubem Braga.
Hoje, 31 de março, numa única tacada, homenageio vários daqueles que lutaram pela liberdade. Nesse contexto, os que venceram o nazismo na Europa, o próprio Rubem Braga que contribuiu para imortalizá-los e os que impediram que o comunismo triunfasse em nosso País em 1964 merecem nossa gratidão eterna.
Encerro com uma citação de Rubem Braga na crônica “Ataque a Montese”, o que significa minha homenagem especial ao maior herói brasileiro vivo, pela bravura demonstrada naquela batalha: Tenente-Coronel Nestor Silva, pai do Coronel Nestor, integrante da nossa querida Turma Marechal Mascarenhas de Morais/1972, da AMAN:
“A mas bela presa de nosso avanço — Montese — é um conquista que realmente honra nossos infantes. .... Eles [os germânicos] ficaram espantados de ver que nossos homens faziam a limpeza da localidade quando os alemães já a bombardeavam fortemente. No meio dos estrondos das granadas que caíam, eles ouviam as nossas metralhadoras que crepitavam nas ruas. .... Montese estava segura em nossas mãos.” 
O então sargento Nestor Silva, promovido a tenente por bravura em Montese, estava lá e foi portanto um dos causadores do espanto dos germânicos.

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Conjunto Habitacional Gilberto Freyre
Região Noroeste do Setor Militar Urbano, Brasília-DF
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segunda-feira, 23 de março de 2020

Mensagem para o Dr. Lindolpho

Caro Dr. Lindolpho,

Como está o senhor, tudo bem?

Conforme havia mencionado em nossa conversa telefônica, pensava que o livro Amor e Matemática, do Edward Frenkel, era destinado ao ensino médio. Talvez, não seja bem assim. Ele se estende um pouco mais. De qualquer sorte, gostei do livro.

Ao concluir a leitura, tive uma agradável surpresa. Transcrevo um pequeno trecho para mostrar a razão.

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No meu trabalho com Witten, analisamos esse fenômeno em detalhes. Um tanto surpreendentemente, isso nos levou a alguns novos insights não só referentes ao Programa de Langlands geométrico para superfícies de Riemann, mas também à coluna central da pedra de Roseta de Weil, que trata de curvas sobre corpos finitos. Esse é um bom exemplo de como as ideias e os insights em uma área (física quântica) podem se propagar de volta às raízes do Programa de Langlands.

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Em abril de 2007, Witten e eu começamos a trabalhar nesse projeto quando eu estava visitando o instituto, em Princeton, e  o artigo foi finalizado no Dia das Bruxas (Haloween), em 31 de outubro (lembro-me bem da data, pois, após publicá-lo on-line, fui a uma festa de Halloween para comemorar). Nesses sete meses, estive três vezes no instituto ficando cerca de uma semana cada uma das vezes. Todos os dias trabalhávamos juntos no confortável escritório de Witten. No restante do tempo, estivemos em lugares diferentes. Naquele período, dividia meu tempo entre Berkely e Paris, e também passei duas semanas em visita ao IMPA, Instituto de Matemática no Rio de Janeiro. No entanto, meu paradeiro não tinha importância.

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Dr. Lindolpho, achei interessante que o Frenkel cite o IMPA em um contexto que inclui o Instituto de Estudos Avançados de Princeton, que abrigou Einstein e von Neumann; bem como --  de forma não explícita -- o Instituto Henri Poincaré, onde ocorre o Séminaire Bourbaki

Acho que o IMPA tem muito mais prestígio do que os brasileiros medianos imaginam.

Permita-me dividir com o senhor a alegria e orgulho dessa obra magnífica

Fraterno abraço,

Aléssio.